Imagina o cabo da guarda

O Dr. Plínio Coelho era o governador do Amazonas em março de 1964 quando João Goulart era o Presidente da República e ocorreu a mudança do regime. Jango foi deposto e exilou-se no Uruguai. Os dois eram do PTB. E o Dr. Plínio era amigo e compadre de Jango.

A oposição local formada por PSD e UDN, com o novo regime, passou a ser poder a nível nacional. O Ato Institucional nº 2 deu poderes ao então Presidente da República, no caso, o General Humberto de Alencar Castelo Branco para cassar mandatos. Nos bastidores articulações as mais diversas para que o Dr. Plínio fosse cassado. O prazo de vigência do AI-2 estava prestes a vencer e a cassacão não acontecia.

Contavam os mais antigos que uma articulação de bastidores terminou resultando na cassação do Dr. Plínio.

As coisas aconteceram no Rio de Janeiro. Dois dirigentes partidários um da UDN e outro do PSD foram ao Rio para tentar saber de novidades e, se possível, influenciar no processo de cassação do Governador.

Lá o da UDN teve a idéia de plantar uma notícia em um jornal carioca que provocasse a ira dos militares e jogasse o Governador contra eles. O jornalista que se propôs a fazer o serviço cobrou por ele. E o dirigente do PSD pagou.

A nota saiu afirmando que o Dr. Plínio tinha dito que se fosse cassado não entregaria o cargo. E que a Polícia Militar garantiria o seu mandato. Claro que tudo isso era mentira, mas provocou a cassação.

O encarregado de comunicar a decisão ao Governador bem como adotar todas as providências relativas à anunciada resistência pela Polícia Militar foi o Comandante Militar da Amazônia que se deslocou de Belém para Manaus.

O Dr. Plínio estava abrindo o Festival Folclórico no Estádio General Osório quando foi comunicado da cassação e chamado para uma reunião na residência do comandante militar em Manaus na Praça do Congresso.

Ouviu do General Jurandir Mamede a notícia da cassação, o registro de que o Exército estava de prontidão e que qualquer tentativa de resistência resultaria em ação imediata do Exército.

Dr. Plínio disse que não era irresponsável de provocar derramamento de sangue ao que o General informou-lhe da notícia publicada no Rio de Janeiro dizendo-lhe que a mesma contribuiu em muito para a sua cassação.

Ficou combinado que ele se dirigiria ao povo através de uma cadeia de rádio, naquela época não tínhamos televisão, e, em seguida, passaria o Governo ao Presidente da Assembléia.

Após concluir bastante emocionado no Palácio Rio Negro o seu discurso de despedida ao lado de muitos políticos e correligionários, terminou por dizer um palavrão que foi captado pelos microfones que ainda estavam ligados.

Assessores não entenderam e foram até ele:

— O que houve, Dr. Plínio?

— Eu fui cassado porque um jornal do Rio de Janeiro disse que eu ia resistir. Isso foi uma armação. E quando eu estava concluindo a minha fala vejo o Coronel Barbosa Filho, comandante da briosa Polícia Milita, chorando e enxugando as lágrimas com as cortinas do Palácio. Se o comandante que ia defender o meu mandato está assim, imagina como está o cabo da guarda?

2 comments

  1. Gostaria de saber o que os militares fizeram para acabar com a corrupção no brasil na época em que torturaram e assassinaram cidadãos brasileiros!
    Ou será que comunismo não póóóóóde, e corrupção póóóóóde?

  2. Sarafa. O blog está ótimo. Estou tendo a oportunidade de rever a história do Amazonas durante a revolução de 64 pois eu ainda era uma criança, mas vc precisa dar nomes aos bois. Quem são os dirigentes da UDN e PSD que fizeram a armação para o dr. Plínio, é uma questão de honra.

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