A miragem da conciliação de classes deu no que deu

As reflexões políticas se voltam para a pesquisa XP/Ipesp vinda a público na noite do último dia 17, pois seus números confirmam os dados recentemente revelados pelo Datafolha. O encontro das pesquisas, realizadas com a distância de uma semana e seguindo metodologias compatíveis, é forte indicador de que o apoio popular ao bolsonarismo vem crescendo desde março de 2019, período coberto pelas sondagens. A última, da citada corretora, realizada entre os dias 13 e 14, confirma a tendência percebida em julho, quando começou a piscar a luz amarela do semáforo. O sinal de hoje é vermelho e aconselha os democratas a pôr as barbas de molho. Às esquerdas diz que podemos estar caminhando para tempos de desrazão que periodicamente flagelam as nações, ricas ou pobres, como as epidemias, que desconhecem fronteiras.

A aprovação popular do pior governo de tantos péssimos governos tivemos no curso desses 131 anos de república mal servida pela política não é um fenômeno trivial.  Oportuno exercício é tentar antever o que os números, hoje, apenas sugerem.

Vejamos a Pesquisa XP-Ipespe.

O conceito ótimo ou bom do governo saltou, entre março e agosto,  de 30% para 37%, enquanto os que o veem como ruim ou péssimo, que eram 45%, são agora 37%, o menor índice desde agosto de 2019. Esses números, em si significativos, não são, porém, dados soltos no ar, porque reafirmados por outros indicadores de aprovação na mesma sondagem, como a expectativa otimista para o restante do mandato (crescimento de 33% para 37%) e  a percepção de que a economia está no caminho certo (alta de 33% para 37%), embora a economia apresente nos dois primeiros trimestres uma retração de 10,94% e agentes do dito “mercado” estimem em 10% a queda do PIB  em 2020.

Na quarta semana de julho,  41 milhões de pessoas estavam sem emprego, meio milhão a mais do que na semana anterior (IBGE), mas, segundo a pesquisa, entre a população  como um todo cresceu de 46% para 52% a percepção de que o emprego será mantido nos próximos seis meses, otimismo que se reafirma  na queda de 32% para 42% do receio do crescimento da dívida pessoal.

Apesar de 66% dos entrevistados haverem tomado conhecimento das “rachadinhas” do filho do capitão,  das falcatruas do assessor e miliciano Fabrício Queiroz, dos depósitos nas contas bancárias da primeira dama, a percepção de aumento da corrupção caiu de 47% para 40%. O doce idílio só se quebra na avaliação do desempenho do capitão no combate à pandemia, pois o conceito de ruim e péssimo é de 50% (já fôra, porém, de 58%). O conceito de bom e ótimo caiu de 41% (março) para 24%.

Segundo os diretores da pesquisa, “toda a melhora na avaliação do governo vem dos estratos da população com renda familiar mensal de até 5 salários mínimos, população que concentra os que requisitaram o auxílio emergencial, benefício de R$ 600 pago pelo governo durante a pandemia. Entre os mais pobres, com renda de até 2 salários mínimos, a aprovação foi de 28% para 34% e entre os que têm renda de 2 a 5 salários mínimos, de 32% para 44%”. Esse comentário pode até servir de ressalva para os que buscam explicação para números tão inquietantes, mas não resolve a questão posta a nu pelas duas pesquisas, que é o fato de as esquerdas e as forças progressistas de um modo geral estarem perdendo terreno para a extrema-direita justamente naqueles segmentos onde se encontravam suas bases mais sólidas. E é inquietante verificar que o bolsonarismo cresce acompanhando a linha da pobreza.

Felizmente, a esquerda não está brigando com os números. Todas as explicações ou interpretações são plausíveis, exceto: 1) negar os fatos para fugir das responsabilidades (como temos feito, por exemplo, relativamente ao segundo governo Dilma); e 2) culpar o povo, que teria esquecido os ganhos dos anos dourados de nossos governos. Ora, desde o segundo governo Lula, o país passou por muitas e profundas transformações econômicas e políticas que não foram consideradas por segmentos de nosso campo. Primamos pelo repouso, quando a realidade se movimentava a passos largos. Não revisamos velhas formas de organização, e muito menos nosso discurso, e não nos demos conta de que o mundo já não era o mesmo, revolvido por crises de toda ordem e pelas transformações impostas pelo desenvolvimento do capitalismo monopolista globalizado (com suas consequências econômicas e geoestratégicas), pela aceleração do desenvolvimento tecnológico, impondo, com a automação e a robótica, transformações inesperadas e profundas nos meios de comunicação e nas relações de trabalho. Muitas dessas transformações não pudemos antever, e por isso fomos atropelados pelos seus efeitos.

Retomo questão que insistentemente venho tocando neste espaço, que é o caráter reacionário, autoritário e conservador de nossa formação. Ele não explica tudo mas é o ponto de partida para qualquer tentativa de interpretação do processo político brasileiro. Desta visão resulta um diagnóstico: o bolsonarismo não é “um raio caído de um céu azul”. Corresponde aos valores e às alienações de parcela considerável de nossa população (que não está sendo trabalhada por nós), um contingente que caminha  das avenidas paulistas  às periferias, onde, a duras penas, sobrevive o brasileiro sobrexplorado que depende daquele  auxílio de R$ 600 simplesmente para poder sobreviver. Esses são dados de uma realidade à espera de nossa intervenção, porque o processo social não pode ser visto como uma realidade congelada. Cabe-nos travar o embate ideológico,  recuperar os bons tempos do proselitismo político, aquele trabalho de base abandonado pela esquerda de um modo geral, e mais particularmente pela esquerda socialista, encantadas ambas com a quimera da conciliação de classes que nos teria levado “ao paraíso” sem o ônus da luta.
Desdobramento de uma leitura equivocada da correlação de forças, a esquerda fez da tática (a via eleitoral como meio de chegar ao governo) sua estratégia e, assim, ficou sem tese, sem rumo e sem azimute, pois, no governo, deixou de perseguir as reformas consideradas possíveis ainda no reino do regime burguês. Com a renúncia ao seu projeto, a esquerda recuou, e desse recuso resultou uma sequência de erros que contribuíram para nos afastar das massas com as quais sempre contávamos.

A cena política ficou dominada por setores da direita e o centro-liberal, coadjuvante do neoliberalismo na economia, o que em nada pode contribuir para a politização das massas,  porque entre o “sistema”  e o bolsonarismo  não sobrevive qualquer sorte de contradição de fundo, aquela que deveria ser marcada por uma oposição de esquerda. Recuamos.  como pensamento e ação.

As dificuldades de hoje são o preço cobrado pela vida real.

O povo não lê os jornalões da oposição liberal, e suas casas não são mais visitadas por nós, e o centro  já não  fala mais em “Frente” para combater ameaças golpistas.   A Ação católica progressista entrou em recesso, a teologia da libertação foi posta no inferno pelo Vaticano. Ficaram os carismáticos e os neopentecostais de direita. Partidos orginalmente revolucionários abraçaram a socialdemocracia, o centro caminhou para a direita, que encontrou o campo livre para a ação doutrinaria, que exerce por todos os meios, permanentemente, sistematicamente, operando os aparelhos ideológicos que tem sob seu controle.
No reino da casa-grande, nenhuma tensão. O figurino de seus sonhos é este que talhou e fez o capitão vestir. Ao contrário das administrações da centro-esquerda, que, em nome da “governabilidade”, estabeleceram alianças e compromissos com as forças que se opunham ao seu programa, a casa-grande recusa concessões. Exerce o seu império. Escrevendo há exatos 45 anos, deitando seu olhar analítico sobre o governo militar, Celso Furtado descreve o sistema de poder a que estamos submetidos desde de 1930 — a “revolução” que impediu a revolução brasileira. Seu texto, de 1975, é de dramática atualidade. Reproduzo para a reflexão dos que ainda não leram seu Diários intermitentes (p. 241) obra que devemos à  paixão e à extraordinária lucidez de Rosa Freitas D´Aguiar:

“(…) Implantou-se um sistema de poder que é essencialmente uma aliança do grande capital, sediado em São Paulo e com fortes vinculações externas, com as chamadas Forças Armadas, mistura de burocracia, partido político e sistema de repressão. O grande capital está organizado em um sistema que está sempre presente, mas que é invisível. Ele manipula a ‘grande imprensa’ e orquestra os ‘movimentos de opinião’, mantém contra a parede o que resta do antigo poder burocrático civil, adula os militares e lhes inocula a ideologia da ‘grande potência’ emergente. Quiçá aí esteja a maior trouvaille do grupo dominante: uma ideologia que restitui aos militares uma motivação de grandeza, depois da fase em que eles eram reduzidos a gendarmes da segurança interna”.

Furtado lembra que é impossível tornar esse socialmente decente se não tivermos forças e coragem para bombardear as estruturas de dominação. Em 2016, quando fomos apeados do governo, entregamos à extrema-direita o Estado tal qual o havíamos recebido em 2003.
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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia