A casa grande já teme o caos

Uma vez mais o caminho é iluminado pelas ruas e pelo que este país tem de melhor: o “povão”, tão bem representado pelas torcidas dos grandes clubes de futebol de São Paulo, que, lecionando o que precisa ser feito Brasil afora, sem pedirem audiência a partidos recatados e a lideranças cautelosas, tomaram para a democracia a avenida Paulista, até este último domingo (31/5) o santuário da elite bolsonarista, cantando de galo em terreiro abandonado pelas forças populares e democráticas. Cantando de galo exatamente por isso, porque estava só: quando não divisa adversário, todo covarde alardeia destemor.

Penso estar diante de fato histórico da maior importância para nosso destino imediato, certamente o mais relevante dos tempos recentes: a entrada na cena política do povo brasileiro, este ator mal querido pelos senhores do poder; ele chega em momento preciso, sem abre-alas, marcando seus próprios passos e fazendo seu caminho, forçando espaço e impondo sua voz. Que amanhã possa impor sua vontade. Que ao movimento espontâneo de hoje siga-se a ação organizada em plano nacional. Se assim se der o desenrolar dos fatos, poderemos apostar que dias melhores virão.
Enfim descobrimos que a sociedade está viva e que o povo-massa não se acovarda.

O povo nas ruas – nas ruas como possível, em face da pandemia, e nas onipresentes redes sociais – alterará substantivamente a correlação de forças do jogo político, e pode fazer malograr o acordo de elites, a conciliação pelo alto, a velha solução prussiana tão presente em nossa História e já em curso, agora em nome da “pacificação” nacional, codinome da conservação do statu quo, depois que os direitos dos trabalhadores foram surrupiados. A casa grande já teme o caos; este não está mais sob a batuta do capitão, suas milícias e seus celerados, pois já caminha livre, alimentado pelo rotundo desastre da política econômica. Em face do imponderável, que são os riscos decorrentes de qualquer explosão social, o “mercado”, antes indiferente à crise institucional buscada pelo capitão (o Ibovespa fechou a semana em alta) cuida agora de proteger seus ganhos e trata de intervir e administrar a “saída”, assegurando-se de que, quaisquer que sejam as alternativas conjuradas por um processo sem prévio controle, elas precisam estar escoimadas da contaminação das pressões populares.

O acordo traficado pelas elites precisa ser denunciado para morrer na praia.
Em nome da “salvação nacional”, que a todos mobiliza, a casa grande propõe um pacto nacional que deságua na preservação de um bolsonarismo bem comportado, confundindo, para melhor fazer passar o contrabando, forma e conteúdo.

Com o risco de insistir no óbvio, é preciso lembrar que o que nos afeta, fundamentalmente, não são os métodos do capitão; no caso presente a forma é o outro lado de sua natureza política. Precisamos nos ver livres é de sua política, mais que de seus maus modos. O que se coloca como necessidade urgente e ingente, agônica, é livrar o país da ameaça representada pela presença do capitão na presidência da república e comandante–chefe de forças armadas com larga tradição de intervenção política e parca cultura histórica.

O que nos aflige, ademais do projeto golpista protofascista escancarado pelo capitão e seus íntimos, é a desmontagem da economia nacional, levada a cabo passo a passo, peça por peça, com imperturbável frieza, pelo agiota alçado ao posto de “superministro”. Por aí está sendo asfaltado o caminho que inevitavelmente construirá o caos: a recessão, o desemprego e a fome têm encontro marcado para o segundo semestre. O establishment, talvez escaldado pelas revoltas que incendeiam os EUA de Trump, eriça as sobrancelhas, pois nem mesmo o capitão, nem mesmo as forças armadas, nem mesmo o império, nem mesmo todos juntos, podem garantir que, desencadeada a convulsão social perseguida pelos aprendizes de feiticeiros, seus interesses e privilégios de classe serão mantidos irrigados como hoje são.

Mas nossas elites são mesquinhas, e agora se revelam tolas, elas que vêm sendo expertas em todos os golpes de Estado que entulham a república. Propõem à democracia uma composição com os inimigos da democracia, como se nós, os que sabemos o que significa a repressão, não conhecêssemos a novela do sapo que tentou salvar o escorpião, condenando-se à morte.
Os termos do acordo fatal são propostos pelo inefável O Globo em editorial (“Os democratas precisam conversar”) do último domingo. Sua importância está não apenas em suas letras; elas se tornam relevantes quando sabemos que as organizações Marinho se orgulham de expressar os interesses das classes dominantes.

O editorial diz que “a sociedade precisa encontrar a saída de uma situação em que as crises provocadas pelo presidente se sucedem”. Ninguém discorda. Temente do caos (mais precisamente: temente que do caos se louvem as forças populares), pede a “reaproximação [na defesa das liberdades] das forças políticas que têm diferenças no campo da economia, na área social e outras, mas compartilham zonas de intercessão”. Dentre as forças chamadas não se encontram os mais interessados – os trabalhadores. Mas indica o objetivo do ajuntamento: a pacificação nacional. Em torno de quê? Ora vejam! Do bolsonarismo: “Esta via política não deve excluir Bolsonaro, que precisa fazer um gesto pelo entendimento”. Para quê? Para que, diz o editorial, o presidente possa “executar sua agenda”. Mas que agenda? Exatamente a agenda que precisa ser defenestrada, essa que desestrutura o Estado, abre as portas ao autoritarismo e aspira ao fascismo. Trata-se da agenda que destrói nossa economia, o neoliberalismo paleontológico do “posto Ipiranga” que já levou o país da estagnação à recessão e agora nos está levando da recessão à depressão, com a qual nos depararemos antes do final do ano e de cujas funestas consequências não nos livraremos antes de meados da década, ainda que não demoremos a nos livrar do bolsonarismo.

Para quem tem o mando o que interessa é sua conservação. Tanto faz se o regime é monárquico ou republicano, democrático ou autoritário, de esquerda ou de direita, corrupto ou não. O fundamental é a conservação do poder, se possível sem riscos. Nossas carcomidas elites, que prepararam a ascensão do capitão (conhecendo-o de perto), que fizeram do ex-juiz e ex-ministro um regra dois para 2022, que já admitiram mesmo trocar o capitão sem modos pelo general mais comedido, nem isso admitem: querem mesmo que nada mude. A “saída” da vez propõe o concubinato da democracia, das liberdades e da “governabilidade” exatamente com quem detona a democracia, investe contra as liberdades e inviabiliza, por método, a governabilidade – o capitão, coiteiro de criminosos, cúmplice de milicianos, o pivô aglutinador da súcia que tomou de assalto nossa história. Implícito está, na proposta veiculada pelo O Globo, que todos os crimes – delitos penais, civis, administrativos, políticos – cometidos pela horda bolsonarista serão varridos para debaixo do tapete, e tudo permanecerá como dantes no castelo de Abranches.

Esta “saída” pode até ser aceita tanto pelo congresso quanto pelo judiciário – pois o papel histórico de ambos, nas crises institucionais, tem sido homologar as soluções traficadas pelas elites civis, empresariais e militares com a assessoria dos procuradores do império; assim foi sempre e nesses termos é que se deu o pacto da redemocratização de 1985. Com o povo nas ruas cobrando a redemocratização, a sociedade mobilizada pela campanha das Diretas Já, a casa grande, um grupelho de auto nomeados príncipes, meia dúzia de políticos conservadores e meia dúzia de generais, negociaram a “transição”, de que resultou a morte da constituinte autônoma e da revisão da anistia, com a consequente impunidade dos militares acusados dos crimes de tortura e assassinato. De que resultou a tutela militar sobre o primeiro governo da “nova república”. Deu no que deu: a emergência, tantos anos passados, da escória dos porões da ditadura. O ícone dos fardados no poder e fora dele não é o general Geisel, mas Sílvio Frota, quando não o facínora Ustra.
Não há e não pode haver negociação com o crime. Com a corrupção, com a traição aos interesses do país. Não há negociação possível, muito menos coabitação com o banditismo, com as milícias, com o armamentismo, com a tragédia social, com a dilapidação de nossas reservas, com a destruição de nossa riqueza ambiental. O adversário não é o capitão, essa execrável pessoa física, mas sua política, seu projeto e o que ele representa como atraso ideológico: a emergência dos valores políticos da extrema-direita com a qual a democracia não dialoga.

O pacto proposto é espúrio. A única esperança que nos resta de vê-lo abortado é a reação das grandes massas, os 70% de brasileiros que se opõem ao bolsonarismo e que, aos poucos, e animados pelos torcedores antifascistas, começam a sair da zona de conforto – espremida entre a pandemia e a ameaça fascista – e descobrir que a ação não apenas é necessária e inadiável, como, principalmente, é possível.

O que o clã Marinho nos oferece é o acordo das elites, para salvarem-se na crise que elas mesmas ajudaram a criar, inclusive com seus jornais e a manipulação política e ideológica que tem seu ponto de partida na desestabilização do governo Dilma Rousseff, seguida pela posse do perjuro Temer, a eleição e o governo Bolsonaro, a consolidação do regime de golpe de Estado permanente. Ninguém – imprensa, judiciário, congresso, forças armadas – pode hoje posar de inocente.

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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia