• 27.02.2017Sem categoriaCOMPARTILHAR Deixe um Comentário

    Por Osiris Silva:

    Os dias que antecederam a assinatura do DL 288, em 28 de fevereiro de 1967, pelo primeiro presidente do recém instalado regime militar, Humberto de Alencar Castello Branco, foram plenos de expectativas, de movimentação dos meios de comunicação, das classes empresariais, estudantis e sindicais. A tarefa a cumprir não era nada fácil. Afinal, a Amazônia, não obstante o Plano de Valorização Econômica da região, instituída na Constituição Federal de 1946 (Art. 199) amargava ainda as vicissitudes do fim do ciclo da borracha. A economia entrara em profundo estado letárgico, de hibernação, como os ursos polares. Só que o nosso inverno se arrastava já a mais de 50 anos. A Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia – SPVEA, instalada em Belém, em 1953, ocupou-se mais da parte oriental da região, deixando a Amazônia Ocidental à míngua.

    No Amazonas, distante do centro do poder, política e economicamente depauperado, a rotina de vida de sua população era a do sol com a lua. Imutável. A economia dependia exclusivamente do extrativismo, do comércio local e exportações de produtos regionais (madeira, essências vegetais, couros e peles, borracha, balata, sorva, piaçava, pescado) e da renda do funcionalismo público. Incipiente indústria de beneficiamento de alguns desses produtos, como castanha, borracha e óleo de pau rosa, sustentava empregos e contribuía modestamente para a formação da renda estadual.

    Até 1952, quando o empresário Isaac Sabbá recebeu a concessão do Conselho Nacional do Petróleo – CNP e implantou a Refinaria de Manaus – REMAN. O empreendimento estimulou a implantação de outros negócios em Manaus, como o Hotel Amazonas, indústrias madeireiras e de tecelagem de juta. A economia voltava a respirar, esperanças se renovavam.

    O Brasil hipotecara seu futuro em 1964. O regime civil-militar iniciava uma jornada incerta, temerosa, a sociedade dividida em relação aos métodos e aos objetivos do novo ordenamento político. As distâncias geográficas e a falta de infraestrutura, como energia elétrica, impedia avanços na industrialização do Estado. Inexistia, por outro lado política voltada à agropecuária, erro que subsiste até os dias de hoje. A instituição da Zona Franca de Manaus – ZFM, cria-se, viria mudar tudo.

    Dois nomes assumiram a liderança da preparação da casa (Manaus) para o grande salto que se imaginava seria dado: Umberto Calderaro Filho, proprietário e dirigente maior do jovem e combativo jornal A Crítica, e Felipe Daou, diretor de O Jornal e Diário da Tarde, organizações de propriedade de D. Lourdes Archer Pinto. D. Lourdes, como era chamada, assinava a influentíssima coluna social Betina e gozava de grande prestígio em Manaus, inclusive no meio militar. Ela teve enorme participação no processo de assinatura do DL 288 por meio de seus amigos militares de Brasília.

    Em Manaus, Umberto Calderaro e Felipe Daou, com o decisivo e incansável apoio de suas equipes de repórteres, empreenderam memorável movimentação, envolvendo grêmios estudantis, sindicatos, associações de classe, autoridades governamentais. Cito, de memória, os jornalistas: Raimundo Albuquerque, Abrahim Aleme, Frânio Lima e Domingos Sávio Lima, por A Crítica.

    Ulisses Paes de Azevedo, Milton Cordeiro, Ajuricaba Almeida, Arlindo Porto, Correa Neto, Carlos Arantes e o colunista que vos escreve. Na qualidade de estudante de Economia, fui um dos encarregados de recolher Notas de Apoio, Moções de Solidariedade junto a entidades diversas. Publicadas, eram em seguida enviadas a Brasília afim de que o Planalto sentisse o pulsar das expectativas da Planície.

    A Zona Franca veio, por fim, mexeu com toda a cidade, para o bem e para o mal. Gerou e frustrou expectativas. Manaus, definitivamente perdeu a elegância e o glamour da época da borracha. Os resultados alcançados não foram os esperados. O espírito de 1967 arrefeceu-se, a luta pela Zona Franca, obra inacabada, restringe-se a poucos atores.

    Definitivamente, urge resgatar, em 2017, o espírito de luta e de mobilização de Umberto Calderaro e Felipe Daou. A ZFM é órfã dessas duas grandes figuras.

  • O Diário do Amazonas, edição de ontem trouxe uma matéria completa sobre os maiores devedores de FGTS.

    Abaixo a lista dos maiores devedores:

    Dentre os maiores devedores estão exatamente as empresas de transporte coletivo da nossa cidade. Esse dado é preocupante, em primeiro lugar pelo prejuízo aos trabalhadores causados ao longo do tempo e de difícil resgate. E em segundo, porque revela a completa fragilidade do sistema como um todo.

    A solução, ou pelo menos o encaminhamento de uma solução, desse problema passa por um grande entendimento que envolve  as autoridades trabalhistas responsáveis , o sindicato que representa, ou pelo menos deveria representar, os trabalhadores, a CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, as empresas e o poder concedente. Caso isso não seja feito, nem ao menos tentado, caminharemos para uma situação bem pior que a atual onde já prevalece um outro entendimento, melhor diria acordo, em que alguns ganham, mas perde a população e os trabalhadores do sistema.

    Fica a sugestão.

     

  • O deputado Serafim Corrêa (PSB) disse que, o melhor caminho para solucionar o problema ocorrido todas as vezes que se aumenta a tarifa de ônibus, em Manaus, não é a planilha, mas o uso de índices que  estejam fora do controle local, acompanhados da transparência.

    Em seu discurso na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), na manhã desta sexta-feira, 24, o parlamentar enfatizou que a planilha de custos não é o melhor caminho e que é preciso a união da prefeitura com as entidades envolvidas. Ele também defendeu o Pacto de Governança como medida a ser tomada.

    “É complicado, estados e municípios concederem subsídios a essas empresas de transporte coletivo quando elas não têm certidão negativa com tributos municipais, estaduais e federais. Isso é bastante complicado. Quando fui prefeito de Manaus por quatro anos, lidei com esse problema e devemos encará-lo com o espírito do Pacto de Governança. Claro que a responsabilidade é do prefeito que tem que se unir com as instituições e não tomar uma postura egocêntrica. Com essa predisposição,  as coisas ficam muito difíceis”, alertou o deputado.

    Serafim acredita que a tarifa deve ser reajustada anualmente, mas a partir de índices que fujam do controle local.

    “Anualmente, a tarifa deve ser reajustada, mas a planilha é falha. Por exemplo, se cada um de nós fizermos uma planilha teremos um valor. A planilha depende da metodologia e dos números que a alimentam . Desse jeito, os empresários vão fazer uma planilha em que o valor vai resultar em R$8,00 e as entidades sindicais vão fazer outra em que o valor da tarifa será R$2,00. No meu entender, a planilha não é o caminho. O melhor caminho é você ter  índices que estejam fora do controle local. Quando fui prefeito, por exemplo, usamos dois critérios para definir a tarifa. Um deles resultava 40% em relação ao aumento do óleo diesel e 60% em relação ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Se o INPC for 5%, 60% disso será 3 %, e se o reajuste do diesel for zero, o aumento na planilha seria somente de 3%. Esse, ao meu ver, é o caminho”, finalizou.

  • Do CONJUR:

    Uma decisão do Supremo Tribunal Federal sobre constrição de bens refletiu no Superior Tribunal de Justiça, possibilitando a resolução de 70 recursos extraordinários contra decisões da corte em conflitos de competência. De acordo com o vice-presidente do STJ, ministro Humberto Martins, com a decisão do Supremo, o STJ afastou a repercussão geral sobre o tema. Os recursos tiveram seguimento negado.

    O tema em discussão é a legitimidade da constrição, pelo juízo trabalhista, de bens pertencentes a pessoa jurídica do mesmo grupo econômico que empresa sob recuperação judicial, porém não integrante da massa falida.

    Ao analisar um dos casos, o ministro destacou que o Supremo Tribunal Federal decidiu em abril de 2016 que a controvérsia se resolve com base na interpretação da Lei 11.101/05, afastando, portanto, a repercussão geral anteriormente reconhecida, já que não há matéria constitucional a ser tratada. Para o STF, não há violação aos artigos 113 e 170 da Constituição a ensejar a discussão em recurso extraordinário.

    No caso mencionado pelo ministro, a 2ª Seção do STJ não conheceu de conflito de competência suscitado por uma empresa, por entender que “o redirecionamento da execução trabalhista para atingir pessoa jurídica reconhecida como pertencente ao mesmo grupo econômico da sociedade em regime falimentar não dá ensejo à configuração de conflito positivo de competência, com vista a declarar competente o juízo universal da falência, se os bens objeto de constrição no âmbito do juízo do trabalho não estão abrangidos pelo patrimônio integrante da massa falida”.

    Em diversos casos idênticos, os recorrentes alegam que apenas o juízo falimentar teria legitimidade para decretar a constrição dos bens e que haveria ofensa aos artigos 113 e 170 da Constituição. Diante da posição do STF de afastar a repercussão geral do tema, o ministro Humberto Martins não admitiu os recursos.

    Com informações da Assessoria de Imprensa do STJ.

  • Por Osíris Silva:

    A nova matriz econômica e ambiental do governo do Amazonas é pródiga em ´programas e projetos de largo alcance. O Plano, recentemente anunciado, abrange investimentos na piscicultura e fruticultura, em ecoturismo, em ciência e tecnologia e na recuperação da Rodovia BR-319. Segundo o governador José Melo, “os eixos da proposta”.  A premissa fundamenta-se na necessidade de diversificar os setores consolidados no Polo Industrial de Manaus (PIM) incentivando a bioeconomia, biodiversidade, bioenergia, bioengenharia, o ecoturismo. Em consequência, induzir a interiorização dos incentivos fiscais buscando-se o equilíbrio industrial, agropecuário e ambiental do Amazonas e da Zona Franca de Manaus. Um sonho de meio século, na verdade.

    A hipótese, segundo o chefe do Executivo amazonense é tornar efetivas políticas públicas que apontem para o aproveitamento do vasto potencial de recursos naturais existentes no Estado. Faz sentido. Segundo a Lei de Say, formulada pelo economista francês Jean Baptiste Say (1767-1832) a oferta gera sua própria demanda. Isto é, o mesmo processo de produção que cria os produtos (oferta) gera também rendas, ao pagar salários, lucros, juros, rendas fundiárias e aluguéis, rendas essas que serão responsáveis pela compra dos produtos (demanda). Certamente, diversificar a economia estadual é básico. Provavelmente o único meio capaz de promover sua reestruturação e desconcentração em bases sólidas no médio e longo prazos.

    Difícil, escorregadio, pleno de armadilhas pelo caminho o esforço do Estado para corrigir consolidada gama de equívocos e erros de 50 anos e encontrar trilhas que permitam solucionar o descaminho do modelo ZFM. Fundamental, reconheça-se, a determinação do governador José Melo de encarar a grave situação em que se encontra a economia nacional e, por extensão, a nossa. Para que seja efetiva e produza efeitos concretos sobre o crescimento econômico, a diversificação proposta deverá dispensar absoluta prioridade a ingentes esforços n sentido de promover o retorno às origens do DL 288/67, que institui a Zona Franca de Manaus (ZFM).

    Inserir a ZFM na agenda mundial da biodiversidade como potencial integrante desse complexo e explosivo mercado é, certamente, o objetivo maior. Para tanto, impõe-se destinar fortes investimentos visando a) o aprimoramento, em escala internacional, do ensino superior e de ciência e tecnologia; b) à reestruturação e capacitação do sistema de assistência técnica e extensão rural, que se encontra falido; c) à criação, por absolutamente prioritária, de empresa estadual destinada a gerenciar a governabilidade do sistema de C,T&I em bases eminentemente técnicas, livres de interferências operacionais políticas ou ideológicas. O conjunto dessas medidas, permitirá, em última instância, promover conectividade às ações, largamente distanciadas e isoladas, de INPA, CBA, EMBRAPA e Universidade, que não conversam entre si.

    Para a escritora e historiadora Etelvina Garcia, “nestes 50 anos, esquecemos de nos preparar para fazer parte da Economia do Conhecimento. Não fomos (e ainda não somos) capazes de converter os dividendos do modelo Zona Franca de Manaus em educação, ciência, tecnologia, inovação, consciência sociopolítica.”.  Segundo Garcia, igualmente “não nos apercebemos de que esses fatores são absolutamente essenciais para que possamos promover mudanças substantivas e inadiáveis na estrutura da nossa sociedade e acumular competência (em escala crescente, e só Deus sabe em que velocidade!) visando responder aos desafios de competitividade da economia globalizada”.

    Obstáculos existem e sempre existirão. Muitos, imensos e diversificados. As pedras no caminho de Drummond – “no meio do caminho tinha uma pedra, Tinha uma pedra no meio do caminho” –, contudo, não podem configurar barreiras intransponíveis. Ao contrário, existem e continuarão a existir exatamente para serem, com determinação e coragem política, removidas.

  • Transparência – 23/02/2017

    O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, recebeu na manhã desta quinta-feira (23), o deputado estadual Serafim Corrêa (PSB-AM) na sede nacional, em Brasília. Durante o encontro, o parlamentar apresentou a cartilha Transparência, Controle Social e Cidadania, elaborada por seu mandato.

    A cartilha traz um passo a passo para auxiliar gestores públicos e cidadãos a obterem informações sobre arrecadação e gastos públicos de Estados, municípios e da União disponíveis nos sites dos governos e nos portais de transparência.
    Carlos Siqueira elogiou a iniciativa do deputado e lembrou que os socialistas estão à frente de ações de transparência que ampliam o acesso à informação sobre gastos públicos e contribuem para o combate à corrupção.
    “A iniciativa do deputado Serafim Corrêa é muito útil para gestores públicos conhecerem e cumprirem a Lei da Transparência, de autoria do senador socialista João Capiberibe (PSB-AP), e para auxiliar o cidadão no exercício de cobrar o acesso a informações que são de interesse público e de toda a sociedade”, destacou.
    Segundo Serafim, a cartilha é uma contribuição aos administradores públicos que têm a responsabilidade de cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal e ao cidadão que, muitas vezes, por falta de informação, não exerce o controle social sobre a arrecadação e sobre o gasto público.
    “Qualquer cidadão seguindo os passos da cartilha poderá chegar aos valores que entram e saem dos municípios. O objetivo é levar informação aos que não têm, e por isso não exercem o controle social da arrecadação e do gasto público, com certeza um dos atos básicos mais importantes da cidadania” afirma.
    A cartilha ensina como conhecer pela internet a Lei de Acesso à Informação, que regulamentou o direito constitucional de acesso às informações públicas, e a Lei da Transparência, de autoria do senador João Capiberibe (PSB-AP), que determina a divulgação, em tempo real, de informações sobre a execução orçamentária e financeira da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios. Lançado no último mês, na Assembleia Legislativa do Amazonas (Alem), o material foi distribuído a vereadores e prefeitos da capital e das cidades do interior e a universidades da região.
    O deputado afirmou que pretende ampliar a iniciativa divulgando relatórios mensais sobre repasses do Governo Federal a Estados e municípios. “A cada mês, vamos divulgar um relatório que informará exatamente quanto o Governo Federal transferiu para os estados e municípios. Com isso, o cidadão poderá exercer a sua cidadania” disse.
    Durante o encontro com o presidente do PSB, Serafim explicou que a ideia de ensinar os cidadãos sobre a transparência nos gastos públicos surgiu de uma indagação sobre como alguns prefeitos amazonenses estavam gerindo os recursos de seus municípios.
    “Mas, em uma rápida pesquisa nos sites da transparência federal e estadual, constatamos que os municípios tinham recebido valores significativos. Por exemplo, Coari recebeu R$ 19 milhões e não tinha efetuado os pagamentos aos servidores municipais”, contou.

    Assessoria de Comunicação/PSB Nacional

  • Por Ribamar Bessa:

    “Sangra o coração do meu Brasil.

     O belo monstro rouba as terras dos seus filhos

     devora a mata e seca os rios”.

    (Samba da Imperatriz Leopoldinense , 2017)

    Tem um Brasil que está morrendo e outro que está nascendo dentro de um país de cores e cantos tão diversos. Para identificá-los, não precisa ser médico-legista nem parteiro. Basta observar neste carnaval o desfile na Sapucaí, mas com os olhos bem abertos para não confundir um com o outro, já que nenhum dos dois tem samba no pé. Um deles manca porque, decrépito, está com esclerose múltipla, enquanto o outro, hesitante e trôpego, está aprendendo a andar e ensaia no sambódromo seus primeiros passos. Só pode ver a diferença quem entende a língua dos pássaros, das árvores e dos rios.

    Berço do renascimento

    O Brasil com um pé entrando no caixão fez tudo para abortar o parto do Brasil com um pé saindo do berço. Em vão. Domingo (26), logo depois da meia-noite, cerca de 3.000 componentes da Imperatriz Leopoldinense, entre eles Raoni e outros índios, desfilam em 32 alas e seis carros alegóricos com a rainha de bateria, Cris Vianna, e mestre Lolo comandando a percussão. “Xingu, o clamor da floresta” canta aquilo que foi explorado na Rio-92 por Daniel Matenho Cabixi com a palestra “As tecnologias dos povos indígenas na preservação do meio ambiente” publicada pela UERJ.

    O enredo foca os saberes de 17 etnias que vivem no Parque Indígena do Xingu (MT) e a contribuição das civilizações indígenas – “a primeira semente da alma brasileira” – na defesa da natureza agredida, da beleza e exuberância de cores da floresta. Exalta as pinturas corporais, o artesanato, os instrumentos musicais – as flautas e os maracás, a liberdade e a memória sagrada. “Salve o verde do Xingu, a esperança, a semente do amanhã!”.

    Esse Brasil que nasce e que está aprendendo a ficar de pé inaugura o diálogo do carnaval com a academia e com os índios, quase sempre discriminados como atrasados ou então folclorizados como exóticos. Da Antropologia, a escola de samba toma emprestado o trabalho de campo como forma de entender o outro, o diferente. Busca na Museologia a curadoria compartilhada com os índios na organização de exposições. Recorre à História para abordar os acontecimentos com o conceito de longa duração de Fernand Braudel, abandonando o fatual, nomes de heróis fajutos e sucessão de datas inúteis.

    Foi assim que, assessorado pelo antropólogo Carlos Fausto do Museu Nacional (UFRJ), o carnavalesco Cahê Rodrigues se deslocou ao Xingu onde conviveu com os índios, observou o cotidiano e com eles concebeu o enredo. Viu a área contaminada por agrotóxico, causador de câncer que já matou muitos índios. Viu os rios secando e a mata morrendo.  ”Voltei de lá com outra cabeça” – disse em entrevista. Viajou com a cabeça do general Custer e voltou pensando como Touro Sentado, a exemplo do ministro Ayres Brito, do STF, no processo da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

    Escola sem partido

    O enredo, dividido em seis setores, começa com o sagrado, passa pelas riquezas da flora e da fauna e aborda a invasão e o roubo de terras. Depois mostra as queimadas, as madeireiras, o agrotóxico e Belo Monte. As alianças de índios com não índios na defesa do Xingu é o quinto carro, o último é o clamor que vem da floresta. Isso foi suficiente para que o outro Brasil com o pé no caixão, passasse a agredir a Imperatriz Leopoldinense e estendesse às escolas de samba o conceito de “escolas sem partido”, que querem nos impor. Mesquinhos, não admitem versão crítica, nem no carnaval. Querem ter o monopólio da narrativa histórica.

    Na última década, em carnavais anteriores, vários desfiles exaltaram a expansão do agronegócio, financiados pelos ruralistas preocupados em limpar a barra diante da opinião pública. A então presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), senadora Kátia Abreu, desfilou em uma delas, a Mocidade Independente de Padre Miguel que saiu, em 2011, com o enredo “Parábolas dos divinos semeadores”, financiada por empresas de fertilizantes.

    A figura sinistra do senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) propõe uma CPI “para discutir, debater e descobrir os financiadores da Imperatriz Leopoldinense“. A Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) em carta atacou a escola de samba. Lideranças ligadas ao plantio de soja, milho, algodão e cana de açúcar se pronunciaram, alegaram que o agronegócio é responsável pela comida e bebida consumida por turistas no carnaval.  Circulou até mesmo denúncia, em matéria assinada por João Paulo Saconi, de que empresários teriam oferecido R$ 15 milhões aos índios para que não desfilassem.

    A escalada de violência culminou com o programa “Sucesso do Campo” da Rede Goiás, afiliada da Record, quando a jornalista Fabélia Oliveira, comentando o samba-enredo da Imperatriz, declarou que “o tradicional malandro carioca” não tem autoridade para falar do índio e da floresta e que o índio “vai ter mesmo que morrer de malária, de tétano, de parto. É a natureza”.

    Dinossauros em extinção

    O carnavalesco Cahê Rodrigues ficou assustado:

    - Eles insistem em agredir a todo instante, com algumas colocações preconceituosas e racistas. Além de ofensas à escola, eles diminuem a imagem do índio, como se o índio não fosse nada. O índio não tem voz. Todas as vezes que ele quer falar, é calado. O tema foi desenvolvido nas histórias de conquistas e de lutas dos índios do Xingu.

    Não parece que os dinossauros estejam com o pé na cova: são ricos, arrogantes e têm poder. Lembrei, porém, de uma charge publicada há anos na capa de uma revista francesa, que para ser didática comete uma impropriedade histórica. Mostra um gigantesco dinossauro que vigiava uma caverna, onde dois seres humanos, pequenos e frágeis, tremiam de medo. Um deles falou assim para o outro: “Por incrível que pareça, esse monstrengo aí fora, grande e forte, está condenado a desaparecer. E nós, seres humanos, vamos nos perpetuar”. Historicamente, numa perspectiva de longa duração, a classe que emprega agrotóxicos vai se extinguir como os dinossauros.

    O Brasil que está nascendo é aquele que, na perspectiva do antropólogo Darell Posey, leva a sério o conhecimento dos índios, incorporando-o à ciência moderna e aos programas de pesquisa e desenvolvimento, que valoriza os índios pelo que são: “povos engenhosos, inteligentes e práticos que sobreviveram com sucesso por milhares de anos na Amazônia”. Tal postura, cria uma ponte ideológica entre culturas, que permite “a participação dos povos indígenas, com o respeito e a estima que merecem, na construção de um Brasil moderno”.

    É essa ponte que a Imperatriz Leopoldinense está ajudando a construir. Se o Brasil que morre está tão incomodado, é porque teme que o Brasil que renasce dê uma grande aula na Sapucaí, construindo outra narrativa no espaço mágico e dionisíaco do carnaval. Darcy Ribeiro, o criador do Sambódromo, Berta Ribeiro, Maria Yedda Linhares, John Monteiro, Antônio Brand e tantos outros amigos dos índios devem estar requebrando alegremente na tumba ao som do samba da Imperatriz. Olha o índio aí, gente.

    P.S. – Convém se concentrar nos pequenos atos e gestos cotidianos do novo Brasil que está renascendo, traz esperança e não nos deixa adoecer diante do quadro político. Foi o caso da defesa de três dissertações no Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO: 1) na segunda (20) Ignacio Gomeza Gomez – “Em busca da memória e da identidade: o povo Charrua no Uruguai e Brasil” (Banca: João Pacheco de Oliveira, Amir Geiger e José R. Bessa (orientador); 2) na terça (21), Renata Póvoa Curado – “Memórias tradicionais como performances culturais: experiências na Aldeia Indígena Multiétnica em Goiás” (Banca: Luisa Belaunde, Zeca Ligiéro e José R. Bessa (orientador); 3) Mariane do Nascimento Vieira – “Narrativa dos Ameríndios: disseminação de uma visão do contemporâneo” (Banca: Amir Geiger (orientador), Thiago Loureiro e José R. Bessa.

    OBS: José Amaro Junior, da Ugagogo de Manaus, é responsável pela montagem feita a partir da foto abaixo de Liliam Tataxinã no Museu do Indio do Rio de Janeiro.

  •  

    Do UOL, em São Paulo:

    • Jogadores de Atlético-PR e Coritiba se despedem da torcida. Não houve jogo

      Jogadores de Atlético-PR e Coritiba se despedem da torcida. Não houve jogo

    Paranaense

    O clássico entre Atlético-PR e Coritiba, marcado para as 17h (de Brasília) deste domingo (19), teve seu início impedido pela Federação Paranaense de Futebol (FPF). Alegando problemas de credenciamento, a entidade se opôs à transmissão do jogo de forma independente e exclusivamente online pelos canais dos clubes no YouTube. Os clubes se negaram a jogar sem a transmissão e a partida não aconteceu.

    Jogadores dos dois times entraram em campo de mãos dadas para se despedir da torcida e voltaram ao vestiário logo depois. A torcida na Arena Baixada gritou “vergonha” e protestou contra a FPF e a Rede Globo.

    “Fica o alerta para que os outros clubes sigam o exemplo de Atlético e Coritiba”, disse o presidente do Atlético-PR, Luiz Sallim Emed. ”Vamos dizer não. É uma palavra simples. Muitas vezes é isso que a gente tem que fazer: romper com essas coisas. Vamos romper com o status quo“.

    Em seu Twitter oficial, o Coritiba falou sobre o impasse. “Funcionários da Federação Paranaense de Futebol solicitam que a arbitragem não permita início do jogo. Motivo: a FPF não permite transmissão do jogo pelos canais de Coritiba e Atlético. A federação pede que o jogo não comece enquanto houver a transmissão online”.

    O diretor executivo de marketing do Atlético-PR, Mauro Holzmann, se revoltou com a decisão e disse que o jogo não aconteceria sem a transmissão pela internet.

    “Atlético-PR e Coritiba não venderam seus direitos [para a TV] por causa dessa merreca que a RPC e a Globo nos ofereceram. E a Federação Paranaense de Futebol não quer dar continuidade à partida enquanto a imprensa estiver aqui. Temos uma produtora independente aqui. Não temos que acabar com a transmissão”, disse ele ao canal do Atlético no YouTube.

    “A federação, de forma arbitrária, quer que tiremos nossa produtora independente. Nós não vendemos o jogo para ninguém, só não aceitamos o que a Federação Paranaense quer fazer. A federação diz que não vai ter o jogo enquanto a transmissão dos canais oficiais não for tirada do ar. Então não vai ter o jogo”, completou.

    O vice-presidente do Coritiba, José Fernando Macedo, também se revoltou com a situação.

    “A federação mandou uma ordem para a equipe de arbitragem de que não pode ser feita a transmissão porque existe um contrato com a Rede Globo. O Coritiba e o Atlético se sentem no direito de fazer a transmissão pelo YouTube. Os dois times não vão abrir mão de jogar essa partida [com a transmissão online]“, afirmou.

    FPF diz que problema é no credenciamento

    Em contato com o UOL Esporte, Hélio Cury, o presidente da federação paranaense, disse que não haveria jogo enquanto os profissionais não saíssem de dentro de campo. Segundo ele, o credenciamento dos profissionais deveria ter sido feito 48 horas antes da partida, o que não teria acontecido.

    “Enquanto os profissionais não credenciados estiverem dentro do campo não vai haver jogo”, disse ele. “Deveria ser feito um credenciamento 48 horas antes da partida. O nosso posicionamento está bem claro: está proibido”.

    Os clubes disseram ter sugerido que os profissionais que transmitem o jogo de dentro do campo poderiam ir para as arquibancadas. Questionado sobre isso, Cury disse que não poderia fazer nada para impedir o jogo nesse caso.

    “A federação só cuida do que acontece dentro do campo, fora nós não temos nada a ver com isso. Se eles tirarem tudo do campo e colocarem na arquibancada não podemos fazer nada.

    Diante do impasse, Cury afirmou que uma entrevista coletiva de imprensa deve ser marcada para segunda-feira para tratar do tema. “Vamos analisar com o nosso jurídico quais serão as consequências jurídicas disso”.

    * Colaborou Adriano Wilkson, de São Paulo

    Minha opinião: É a internet derrubando muros e monopólios e/ou oligopólios. Ainda há resistência, mas ela não vai demorar.

  • Por Ribamar Bessa:

    “Vá logo deixando / Senhor forasteiro / A sua vergonha / em Marapatá”.

    Anibal Beça (1946-2009), poeta amazonense

    Dizem que foram instalados dois balcões informatizados da ilha de Marapatá no edifício circular do aeroporto de Brasília: um na área de embarque e outro no desembarque. De uso exclusivo das autoridades, até agora eram mantidos em segredo, mas foram revelados nesta semana para explicar os recentes atos despudorados de senadores, deputados, ministros, inclusive do STF, que ultrapassaram todos os limites do decoro, da vergonha e da moral, fazendo coisas que até o diabo duvida.

    Marapatá, uma ilha na foz do rio Negro perto do encontro das águas, era a única porta de entrada de Manaus antes da existência de estradas e aviões. Desde os tempos coloniais, foi sempre parada obrigatória dos barcos. Reza a lenda que o forasteiro deixava lá sua vergonha, o que lhe permitia entrar na cidade sem qualquer freio moral. E aí valia tudo. Após fazer fortuna por meios ilícitos, ia embora do Amazonas. O barco dava outra paradinha para que, já rico, recolhesse a honra ali deixada e recuperasse a decência e a honestidade.

    Lazareto de almas

    Cantada em prosa e verso, Marapatá foi classificada como “um lazareto de almas” por Euclides da Cunha, numa época em que a lepra era vista com preconceito. Era lá que se escondiam os espíritos purulentos, o caráter dos trapaceiros e delinquentes. Foi lá que Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter”, deixou sua consciência pendurada em um mandacaru de dez metros para evitar ataques das saúvas, segundo Mário de Andrade.

    O pesquisador amazonense Mário Ypiranga publicou, em 1963, no Jornal do Folclore, narrativa do velho Rufino Santiago, dono de uma serraria na enseada da ilha, habitada há milênios por Jumutimpora, um ser mitológico, que é um duende do bem. Ele sequestra as piores vergonhas ali deixadas para que os seus donos safados não as recuperem. É por isso que, ainda hoje, gemidos de consciências extraviadas ecoam na ilha assombrada, conforme relatos de cabocos ao historiador Antônio Loureiro, em quem confiaram por ser ele um honrado ING (Indivíduo Não-Governamental).

    Marapatá ganhou até canção com letra do nosso dileto poeta Anibal Beça e música de Armando de Paula: “É Marapatá, porta de Manaus, é Marapatá, patati patatá”. Por essa porta passou há anos o atual governador do Amazonas José Mello (PROS vixe vixe), quando migrou de Ipixuna para a capital. Deixou debaixo de uma sapopemba sua consciência, que dá uivos lancinantes cada vez que Mello morde a merenda escolar.

    Brasilha de MarapatáPor transfigurar santo em bandido e vice-versa, a ilha de Marapatá assinou contrato de franchising com o Sistema Integrado de Tratamento de Informação Aeroportuária (SITIA) de Brasília. Cada vez que uma autoridade desembarca na capital da República, deixa lá no balcão sua honra com seu nome, assumindo o apelido revelado nas delações premiadas. Quando embarca de volta às suas bases, passa no balcão e recupera seu nome, fazendo cara de ilibado, de honrado. Todos eles possuem codinomes e apelidos e pertencem a partidos vixe-vixeados.

    Foi assim com o senador Romero Jucá – o “Caju” – líder do governo no Congresso. Ele teve o culhão – desculpem, não há outro termo – de propor na quarta (15) uma emenda constitucional para blindar o presidente do Senado, Eunício Oliveira – o “Índio”- e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia – o “Botafogo”, ambos citados na Operação Lava-Jato. Neste mesmo dia “Botafogo” conduziu aprovação do projeto de repatriação de recursos por mulheres e parentes de políticos, que acabou sendo derrubada. Ambos recuaram, mas voltarão a atacar. Foi um teste, um balão de ensaio.

    “Caju” foi quem propôs detonar a Lava-Jato numa conversa gravada com Renan Calheiros – o “Justiça”, então presidente do Senado, e José Sarney – “o Escritor”, o que foi avaliado como “ataque gravíssimo às instituições” pelo ministro do STF, Teori Zavascki, morto logo após em acidente aéreo. Só a ausência de qualquer resquício de vergonha e a certeza da impunidade podem levar indivíduos pagos pelo contribuinte a legislar não no interesse público, mas para acobertar seus próprios delitos. Esse é atualmente o principal trabalho dos parlamentares: tratar de tirar o loló da seringa.

    Foi o que fez o presidente Michel Temer – o “Sem Medo”, citado 43 vezes nas delações – ao nomear ministro Moreira Franco, o “Angorá”, citado 34 vezes, além de ser acusado de peculato e apropriação de recursos públicos. Dessa forma, o “Angorá” adquire foro privilegiado e escapa da Lava-Jato. Contou com o aval do ministro do STF, Celso de Mello, que sequer considerou liminar anterior de seu colega Gilmar Mendes proibindo a posse de Lula. Com dois pesos e duas medidas, o STF frequenta a ilha de Marapatá.

    Ave Jumutimpora

    Marapatá, onde todos deixaram suas vergonhas, ajuda a explicar como é que suspeitos de falcatruas podem ser ministros, além de presidir o Senado e a Câmara. É impressionante! Com tanto brasileiro honrado, Temer busca no chiqueiro sujeitos com codinome nas delações da Lava-Jato. Um deles, Eliseu Padilha – “o Primo”, ministro-chefe da Casa Civil, investigado por propinas nas obras de Belo Monte e apontado em delação como o operador dos repasses destinados ao próprio Temer, justificou publicamente que o loteamento de cargos é para fortalecer a base aliada do governo. Um balcão de negócios.

    O ex-ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, advogado de  Eduardo Cunha e do PCC, indicado por Temer para o STF, será sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça presidida por Edison Lobão – o “Sonlo”. São os suspeitos de corrupção que vão aprovar quem vai julgá-los. Simularam até uma sabatina no barco-motel “Champagne” para treinar o sabatinado, enquanto singravam pelo lago Paranoá. Esses jamais recuperarão a vergonha no balcão de Marapatá.

    Agora, a Folha de SP (17/02) dá conta de que “Ministros do STF discutem libertação de Eduardo Cunha”. Não há qualquer preocupação em manter as aparências. O decoro, a decência, a compostura, ficaram mesmo na ilha de Marapatá. Somente o Jumutimpora, as panelas e o povo nas ruas podem resgatar a consciência da pátria mãe gentil.

    P.S.1 – Modéstia à parte, essa é a contribuição da sabedoria popular do Amazonas para os brasileiros entenderem o cenário nacional. Segundo o dicionário de Stradelli, a palavra marapatá em nheengatu designa uma espécie de peixe de pele. Ele escreve, no entanto, que Mara “traz sempre consigo a ideia de algo ruim, de mau, que não presta” (pg. 406). Por outro lado, jucá significa “apodrecido” ou “se cagado” (pg. 386). Quero ver minha mãe mortinha no inferno se estiver mentindo. Podem conferir no local indicado da segunda edição. Já Temer, em nheengatu, quer dizer “ferrá-los-ei” e aqui, por não lembrar a página, prefiro poupar minha mãe.

    P.S.2 Ao contrário de Alexandre de Moraes, que copia e não indica as fontes, dou a referência: STRADELLI, Ermano. Vocabulário da língua geral portuguez-nheengatú e nheengatú-portuguez, precedidos de um esboço de grammática nheenga-umbuê-sáua-miri e seguidos de contos em língua geral nheengatú poranduua. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,104 (158): 9-768. Rio de Janeiro, 1929.

  • « Entradas Anteriores