Impressões do Amazonas: “miasua” na memória gráfica

O aviso de fuga publicado no jornal anunciava que João Mulato, 34 anos mais ou menos, desdentado, traços indígenas, olhos pardos, cabelo pouco crespo, barba rala, trazia na testa marcada com ferro em brasa a palavra em nheengatu que significa escravo: miasua. Sua companheira de fuga, Alexandrina, 26 a 28 anos, alta, boa figura, olhos grandes e pretos, nariz chato, pés crescidos, requebrava as cadeiras ao andar. O dono dos dois, Antônio Jozé Pereira Carneiro, idade e tipo físico não mencionados, prometia dar uma boa recompensa “a quem capturar ou deles der notícia”.

Quem deu notícias deles 168 anos depois foi Rômulo do Nascimento Pereira – sem parentesco com o escravagista Jozé Pereira – que nesta quarta (16) defendeu a tese de doutorado na Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI- UERJ): “Impressões do Amazonas (1851 a 1910): memória gráfica e o desenho do circuito de comunicação impressa”. Como recompensa obteve o título de doutor. Ele vasculhou acervos físicos e digitais no Amazonas e no Rio e em sites de universidades brasileiras e do exterior, para descrever a produção gráfica amazonense – um tema relevante ainda pouco debatido.

Alguns desses produtos eram desconhecidos ou não haviam sido ainda estudados: jornais, revistas, almanaques, folhetos, calendários, impressos avulsos, álbuns, fotos, desenhos, anúncios comerciais de lojas e farmácias, livros usados nas escolas e até tabuadas. Entre eles, o jornal A Estrella do Amazonas com quase 500 exemplares consultados no acervo digitalizado da Hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio, mas também alguns manuseados fisicamente no período de vida do jornal, de janeiro de 1852 a junho de 1866.

No exemplar de 29 de abril de 1856, Rômulo se deparou com o anúncio da primeira fuga dos escravizados João Mulato e Alexandrina, com duas vinhetas tipográficas, em uma delas a imagem de um homem negro caminhando e segurando uma trouxa. Decidiu sair em busca do paradeiro dos dois. Descobriu que foram capturados em março de 1858 em circunstâncias não reveladas, ao encontrar em outro exemplar a continuação dessa história no anúncio de uma segunda fuga em companhia de “um mulato de nome José Paulino”, publicado na seção “Avizos Diversos” (22/05/1858). A forma como esse material foi trabalhado ilustra a metodologia empregada

Discurso gráfico

Sua hipótese central parte do postulado por alguns teóricos do design studies, especialmente anglo-saxões, para quem o design está inserido na cultura que o produziu, o que parece óbvio, mas que traz implicações ao trabalho do pesquisador que buscará, então, verificar em que medida os artefatos visuais trazem as marcas culturais de uma dada sociedade. Se a produção gráfica no Amazonas dialoga com a sociedade amazonense, então uma pode ajudar a compreender a outra. Para isso, é preciso transcender os aspectos meramente técnicos e adentrar numa área interdisciplinar.

Foi o que Rômulo fez incursionando por diversos campos do saber com maior ou menor intensidade: etnografia, antropologia visual, memória social e especialmente a história da Amazônia em suas diferentes ramificações: a história da literatura, das línguas, do livro, da imprensa, da arte, do trabalho, além de embrenhar-se pelas áreas da economia e dos estudos culturais. Uma estratégia ambiciosa, que pode ter sido facilitada pela formação acadêmica do pesquisador, graduado em design, com mestrado em letras, além das disciplinas cursadas no doutorado que foram decisivas e a experiência profissional como designer gráfico e diretor de artes da Editora Valer.

O grafismo indígena presente na edição do mito Desana atualizado – Antes o mundo não existia –  que emprestou o título à uma das seções do primeiro capítulo, permitiu discutir aspectos da formação da região a partir da visão de quem a ocupava milenarmente e que foi deixado de lado até mesmo por Euclides da Cunha (pg. 73,74) para quem “o homem é um intruso que chegou sem ser esperado”, destituindo assim de humanidade os povos que ai viviam antes da colonização.

Com relação aos primeiros jornais, sinalizou as dificuldades materiais, técnicas e de pessoal. Identificou a composição gráfica e seus recursos, os fios que delimitam os espaços e separa as seções, os recuos nos inícios dos parágrafos, os tipos serifados e seus estilos, além de ligaduras e vinhetas, que permitem delimitar a variedade no discurso gráfico, entre elas a imagem do “escravo” em fuga, que aparece nos “Avizos” ou “Anúncios”.

Numa busca exaustiva dos elementos gráficos visuais e editoriais, descreveu álbuns iconográficos, fotografias, publicidade comercial, cartões postais, menus, cartazes, ingressos de teatros com cercaduras, tarjas, ornamentos. Mas foi além disso. Na medida em que vai expondo a trajetória da produção gráfica em cada período analisado, a tese vai evidenciando como a sociedade amazonense se desnuda através da história do design, cujo estudo contribui para o entendimento do Amazonas, de sua história e de sua cultura. Foi o que ocorreu com os avisos de fugas de João Mulato e de Alexandrina.

Estrondoso silêncio

A vinheta do “escravo” em fuga leva o autor a refletir sobre a escravidão no Amazonas e sobre as condições de trabalho duro e mal remunerado dos tipógrafos, incluindo o trabalho infantil e da mulher.

O fato de João Mulato ter na testa “escripto em lingoa geral a palavra escravo” levou também o autor da tese a abordar “o entrondoso silêncio impresso” – título de uma seção do segundo capítulo – que apresenta um panorama da situação sociolinguística e do bilinguismo da província formada por uma comunidade bilíngue predominante até 1870.

De um lado o Nheengatu presente na fala cotidiana no interior das residências amazonense, de outro o português escrito nos jornais impressos, que se limitam a algumas raras ocorrências em língua geral, como a palavra miasua gravada a ferro em brasa na testa de João, que é mencionada sem ser grafada nos avisos dos jornais, mas que encarcera, nessa escrita macabra, alguém marcado como gado.

O anúncio da segunda fuga registra João Mulato, agora sem referência à palavra “escravo” em nheengatu, mas com o rosto esfolado cheio de manchas. Rômulo se pergunta se teria sido deliberadamente rasurada e se a tentativa de apagar as seis letras teria sido uma automutilação para dificultar sua identificação, configurando uma tentativa de fuga da prisão simbólica em que foi encarcerado com sua pele queimada pelo seu dono, cuja alma – digo eu – estava certamente marcada com a palavra piá-ayua (malvado, biltre, sacripanta).

As sequelas da escravidão, ao lado de elementos da modernidade, podem ser visualizadas em outros avisos, até em jornais de Belém, como o de uma vinheta tipográfica de 1861 que registra a fuga do escravizado Geraldo, falante de Nheengatu, postada ironicamente logo abaixo de um anúncio de chocolates finos e acima de outro que proclama a venda de catecismo e de dicionário da língua geral.

A escravidão no Amazonas – conclui o autor – embora sem a mesma importância econômica que teve no Nordeste e no Sudeste, “deve ser lembrada e discutida para não se tornar invisível”. Como escreveu o historiador Luís Balkar Pinheiro, “o ocultamento da presença negra na Amazônia continua efetivo, mantendo incólume uma das mais graves distorções na escrita da história da região”.

A tese

E esse é outro mérito da tese. Rômulo se ancorou numa cuidadosa revisão bibliográfica de autores que trabalharam tema correlatos, entre outros o citado Luís Balkar, Luísa Ugarte, Patrícia Sampaio, Renan Freitas Pinto e tantos outros, além das mais recentes e seletas contribuições da produção dos programas de pós-graduação regionais e nacionais. Senti falta apenas da tese de Geraldo Pinheiro defendida na Universidade do Porto em 2011: “Imprensa, Política e Etnicidade – Portugueses letrados na Amazônia (1885-1936)” que tem tudo a ver com o tema, impossível, no entanto, de ser mais ampliado devido à sua extensão.

Já é uma obra de referência, com 134 figuras, 15 tabelas e 5 apêndices que registram num total de 602 páginas os artefatos impressos por décadas, as oficinas tipográficas, os profissionais, as empresas e instituições, dando conta de um mundo vasto e complexo num tempo e espaço exíguos. Lembrei frase atribuída, entre outros à Voltaire, sobre correspondência epistolar com um amigo: “Desculpe-me tê-lo cansado com carta tão longa, mas não tive tempo de escrever-lhe uma carta breve”.

Efetivamente a síntese é mais trabalhosa e a publicação em livro recomendada pela banca requer um enxugamento, embora a escrita seja fluente e agradável, proporcionando uma viagem prazerosa pelo mundo amazônico. Nunca pensei que o design poderia dizer tanto sobre a região.

P.S. Rômulo do Nascimento Pereira: Impressões do Amazonas (1851 a 1910): memória gráfica e o desenho do circuito de comunicação impressa. Rio. Programa de Pós-graduação em Design. ESDI-UERJ. 2020. Todas as imagens aqui apresentadas foram compostas pelo autor.

Banca: Lígia Maria Sampaio de Medeiros (orientadora); Márcio Páscoa (UEA), Otoni Mesquita (UFAM), José R. Bessa Freire (UERJ-UNIRIO) e Luiz Antônio Gomes (UERJ – ESDI)