COMO NÓS, VELHOS, BRINCÁVAMOS: UMA AULA NA EDEM

Por Ribamar Bessa:

“I am  out of the game. I am ready, my Lord”

(Leonard Cohen)

– “Tuturubim tetê tique-taque tambarola teje dentro teje fora”.

Fora? Fora quem? Era assim que, no bairro de Aparecida, em Manaus, a gente escolhia, nos anos 1950, quem ficaria na berlinda ou ocuparia lugar de destaque nas brincadeiras. Essa fórmula de sorteio, que a TV substituiu por “uni duni tê”, foi ressuscitada nesta terça (21) na escola EDEM, em Laranjeiras, no Rio, numa aula para crianças do 1º ano do Ensino Fundamental. Aos seis anos, elas estão estudando as fases da vida e se interessaram em conhecer a rotina de um idoso. Esse velhinho aqui, quase septuagenário, foi escolhido para conversar com a turma, atendendo indicação de sua neta à professora.

– Te comporta, vovô – advertiu minha neta. Por causa dela, eu me comportei. Durante uma hora, as crianças me bombardearam com dezenas de perguntas para comparar as nossas respectivas infâncias. De saída, um menino com cara sapeca me provocou:

– Você era muito bagunceiro?

Fui sincero:

– Muito! Aprontei muuuuuito! Eu tocava o terror –  respondi sem disfarçar o orgulho. O menino abriu um sorriso cúmplice e sacana, pedindo detalhes. Mas a expressão discretamente aflita da professora me fez omitir as travessuras, que só conto em particular para minha neta (e assim mesmo longe dos pais dela), porque afinal, sem insubmissão não haveria História. Além do mais, alguém tem de ensinar – que seja o avô – que uma transgressãozinha aqui e ali pode fazer um bem danado à vida, à sociedade e ao insubmisso. Em certas circunstâncias, bien sûr. Ah, se os soldados nazistas tivessem aprendido a desobedecer!

Uma menina: – Você lembra o nome da sua primeira professora?

A pergunta me permitiu recuperar lá do fundo do baú uma freira inesquecível, a irmã Cecília e, com ela, organizar a memória da infância, de seu jardim e de seu quintal.

O que é Mbaravija?

Queriam saber como era meu trabalho de professor de gente grande na UERJ e na UNIRIO. Nada disse sobre as aulas na graduação e na pós. Por ser monotemático, lhes falei dos cursos de formação de professores indígenas que ministro. Mostrei o livro Maino´i rapé – o caminho da sabedoria, que fizemos com os professores guarani. As crianças adoraram um cartaz bilíngue guarani x português com adivinhações: “Mbaravija, Mbaravija? – O que é, o que é?”, editado pelo Museu do Índio com assessoria do antropólogo Luís Doniseti. Acertaram quase todas as adivinhações com que os velhos guarani desafiam os netos.

– Na sua época tinha dinossauros? – me perguntou uma menininha linda, quando soube que no mundo da minha infância não existiam tablets, celular, videogame, internet, computador, televisão, shopping. Coitadinho do vovô! Como é, então, que eu brincava? Desafiado, fiz uma enorme lista parecida ao Jogos Infantis, o óleo sobre tela do Pieter Bruegel, o Velho, com crianças em roupas alegremente coloridas se divertindo na praça, no jardim, nas ruas, dentro de casa e até na beira do rio, colecionando mais de 80 brincadeiras de sua época, o século XVI.

O velho Bruegel certamente se entusiasmaria com alguns  brinquedos amazônicos caseiros: óculos de caroço de marimari, time de botão e bolinha de gude de tucumã, pião da goiabeira, curica de papel, telefone de caneca de leite condensado, trator de lata redonda cheia de areia atravessada por arame, aro de bicicleta rodado com vareta. Havia ainda brincadeiras mais universais: perna de pau, barra bandeira, macaca (amarelinha), queimada ou cemitério, cabo de guerra, 31 alerta, manjalé, alguns descritos por Thiago de Mello em seu Manaus, Amor e Memória.

Tinha brincadeira sazonal. Na época das chuvas, milhares de tanajuras, fêmeas das saúvas, voavam à tardinha, buscando acasalar. Corríamos em bandos, cada um com uma lata, gritando repetidas vezes como numa ladainha: “Cai, cai tanajura, tua bunda tem gordura”. A autonomia de voo delas era pequena. Caíam, atordoadas. Com farinha, dava uma farofa supimpa. Isso o Walter Benjamin faria nas ruas de Berlin, se lá existissem formigas aladas.

Estreita, estreitinha

A brincadeira que os Makuxi deixaram para a atividade motora das crianças amazonenses foi a do Gavião e da Galinha, personagens representados pelas duas crianças maiores. Detrás da galinha se enfileiravam os pintinhos. Diante deles, o gavião, aos pulos de um lado ao outro, atacava: “Quero comer galinha assada”. A galinha e os pintinhos se defendiam e respondiam em gritos cadenciados, sempre saltitando: “Não há de comer, não há de comer”. De um por um, o gavião vai pegando sempre a última criança da fila, que passa a pular detrás dele. A brincadeira termina quando a galinha fica sozinha.

As brincadeiras eram quase sempre iniciadas com vários tipos de sorteio como o tuturubim. Um deles trazia a voz do mundo rural e católico, separando sílaba por sílaba:

– “Fui no mato cortar lenha, santo Antônio me chamou, quando santo chama a gente, que fará o pecador? Anambu, Anambu, quem está fora és tu, Anabela, Anabela, quem está fora é ela”.

Brinquei muito de ciranda com minhas nove irmãs e me preparei psicologicamente para pagar o mico na EDEM cantando cantiga de roda. Na minha memória constavam várias: “Esta menina que está na roda, já tem idade, idade de casar”, “Bom dia, Vossa Senhorinha, matutiro, tirulá”,  “Pombinha quando tu fores, me escreve pelo caminho”, “Pombinha branca, o que estás fazendo?” “Janeiro vai, janeiro vem, tu és de todas de mim também”, “Machada minha machadinha”, “Onde mora a bela condessa” ou “Eu sou leiteira, eu sou leiteira, eu vendo leite, na cidade de Lisboa”.

Não foi possível cantar porque o tempo se esgotou. No final, me pediram para deixar uma brincadeira para a turma. Hesitei entre “Berlinda”, “Tome esse anelzinho e não diga nada a ninguém” e “Larga, Estreita, Estreitinha”. Optei pela última. As crianças ficam todas sentadas, aquela que for sorteada pergunta à primeira delas:

– Você quer comprar fita?

Diante da afirmativa, nova pergunta:

– Fita larga, estreita ou estreitinha?

Se a resposta for “larga”, as duas crianças trocam um abraço. “Estreita” um aperto de mão” e “Estreitinha” um beijo na bochecha. O jogo, que revela as relações de afeto, de cumplicidade e de distanciamento, prossegue até a última criança. Quando era com a Socorro da dona Maria Rosa, eu sempre respondia “Estreitinha”.

Dentro do jogo

Fiz uma única pergunta à turma: para que serve um avô? As respostas foram as mais variadas, mas o suficiente para perceber a importância das relações do avô com seus netos e netas. Duas gracinhas que não fiz, mas tive vontade: 1) Não, na minha infância não tinha dinossauros, só na época do Sarney. 2) No tuturubim tetê gostaria muito que a última sílaba caísse em Michel Temer.

O Brasil seria outro se o modelo da Escola Dinâmica do Ensino Moderno (EDEM) pudesse se espalhar pela escola pública como na França, onde professoras aposentadas são convocadas para contar histórias na escola, teatralizando a narrativa e recuperando a memória oral em uma sociedade digitalizada. Esse espaço de liberdade, essa integração família e escola é o que alguns professores índios também estão fazendo, chamando os velhos para apoiá-los.

O tempo da aula e da vida passou rápido. De qualquer forma, as crianças da EDEM me fizeram sentir que ainda não estou fora do jogo. O professor normalista que sou, formado no Curso Pedagógico do Instituto de Educação do Amazonas, aluno de Orígenes Martins e Mercedes Ponce de León, se sentiu realizado. Ao contrário do Leonardo Cohen, I am not out of the game, I am not ready, my Lord.

P.S. – As crianças querem saber como se brincava na Angola e em Portugal. Querido Nuno Pereira, a bola agora é tua, mas por favor, te comporta.

OBS. – Agradeço o convite da professora Daianne Xavier. As crianças estão em boas mãos. As fotos foram feitas pela Assessoria de Audiovisual EDEM 2017.