A esquerda em seu labirinto: a luta que se perde é a que se abandona

O partido hegemônico na centro-esquerda está fora do segundo turno em quase todas as capitais (a exceção é Vitória).

Ademais, repete em 2020 a política equivocada de 2018, quando, com as candidaturas que escolheu para as sucessões paulista e fluminense, de fato estava optando por fugir do pleito.

É impossível ganhar quando se abandona a luta. Anti-candidatura, só a do dr. Ulisses, nos idos da ditadura. Neste ano, porém, o equívoco do Partido dos Trabalhadores é ainda maior, pois, com a candidatura sustentada pela nomenclatura em São Paulo, está, para todos os efeitos, e teimosamente, impedindo a ida ao segundo turno da chapa Guilherme Boulos-Luiza Erundina.  Duas notáveis lideranças da esquerda brasileira.

A que estratégia serve a tática do recuo reiterado?

A bem da verdade, essa política não é de hoje, começa a ser formulada com a “Carta aos brasileiros”, de 2002, ponto de inflexão significativo que se revelou um caminho sem volta. Não nos esqueçamos de que Henrique Meireles, egresso do Banco de Boston, era o presidente do Banco Central nos dois mandatos de Lula. A tática se transforma em estratégia no segundo governo de Dilma Rousseff, com Joaquim Levy (hoje no Banco Safra, após doce vilegiatura no Banco Mundial) e a política recessivista, de austericídio, na contramão do discurso da campanha eleitoral vitoriosa.

O que justifica, nesta quadra da História, o PT, que se recusa a apoiar Boulos em São Paulo, firmar alianças com a extrema-direita (representada pelo PSL) em 136 municípios país afora? Que pedagogia espera passar para o povo?

Que pretende Jilmar Tatto, em São Paulo, quando inclui a candidatura de Márcio França (linha auxiliar do tucanato paulista que flerta abertamente com o bolsonarismo) entre as alternativas para o campo progressista?

Admitamos que a burocracia não queira revisar seus procedimentos; não há, porém, o menor sentido em ficar a repetir ano após ano clamorosos erros de estratégia política, erros que estão à vista de qualquer observador mediano, e que, a esta altura, já começam a atingir o ex-presidente Lula, patrimônio político que extrapola os limites e a história do PT. Seu desgaste atinge profundamente o conjunto das forças progressistas, e nos enfraquece no confronto tanto político quanto eleitoral com as forças da reação, fortes como nunca estiveram na história republicana.

Não tem sentido, flagrados diante de insucessos (que afetam os interesses dos trabalhadores), manter a ladainha “estamos do  lado certo da História”, trampa gasta, despolitizante, que não serve, sequer, como indulgência.

A dez dias do pleito, apenas duas candidaturas de esquerda (nenhuma do PT) estão com o passaporte carimbado para o segundo turno nas capitais: a de Manuela D’Ávila (PCdoB),  em Porto Alegre, e a de Edmilson Rodrigues (PSOL) em Belém. Muito pouco, convenhamos, para quem se prepara para o pleito de 2022, o ano do nosso resgate, como anunciou Lula.

Sob argumentos simplórios e despistes ideológicos, os diversos segmentos de nosso campo mandaram às favas a antiga política de alianças que vinha assegurando as seguidas vitórias do PT e o avanço político-eleitoral dos demais partidos.

A proposta de frente ampla ou democrática foi rejeitada porque a hora exigia a frente de esquerda, mas esta foi recusada por ser estreita… Ganhou a burocracia doutrinária, perderam os trabalhadores e o processo democrático. Ganhou o statu quo, ganhou a casa-grande, o retrocesso, o terraplanismo. FIESP e Febraban agradecem. E digamos também: ganhou a extrema-direita, porque nossos dirigentes não foram capazes de construir um pacto de ação comum contra o chorume que tomou de assalto o poder central e nele tudo faz para permanecer, enquanto vai devastando nosso projeto de Estado de bem-estar social.

Perdidas na tentativa de sobrevivência isolada, manietadas pelo labirinto legal que controla os partidos e as eleições em benefício das grandes legendas, nossas organizações também estão divididas na identificação da palavra de ordem que unifica nosso campo na ação, quando, olhando para a realidade de hoje, não se vislumbra outra proposta senão o combate, sem tréguas, em todos os níveis, ao governo Bolsonaro e, sobretudo, ao que ele representa do ponto de vista político-ideológico. O combate é agora, e não em 2022.

A atual  geração de dirigentes políticos foi vacinada contra o esquerdismo (aquela “doença infantil” tão profligada por Lênin), mas não se deu conta de que outra doença se inoculava, sorrateira, no organismo político, qual seja, o burocratismo, um fenômeno da senilidade que leva aos desvios de direita, distanciando os partidos de suas bases e da sociedade. Daí muitas organizações, originalmente revolucionárias, recuarem para o reformismo; enquanto reformistas e sociais-democratas recuam para o conservadorismo e a direita.

O “novo” partido que daí surge deixa de ser instrumento de realização de um projeto de governo (ou de sociedade), para transformar-se no próprio projeto. Partido autointitulado como de vanguarda, sua “vanguarda” é a sua direção, sábia por definição, e ela deve comandar o partido, e o partido as massas, porque ela, direção, é a representação autoproclamada dos interesses do povo.

Alheio à História, o partido se transforma em meio e fim em si mesmo; autocentrado e autorreferente, tem como missão (“destino histórico”) ditar o rumo político das demais organizações. É a forma de exercício de um hegemonismo burocrático que não considera o consenso, ou a conciliação de interesses. Fundem-se pragmatismo frouxo e eleitoralismo rasteiro (uma distorção burocrática da opção pela via eleitoral);  por consequência fomos levados a abandonar a luta ideológica, que perdemos para a direita, simplesmente por não havê-la levado a cabo. A ascensão do ideário e da ação da direita e da extrema-direita, civil e militar, e a eleição do capitão, fenômenos interdependentes, não podem ser considerados “pontos fora da curva”. E não há sentido em reclamar do adversário, que simplesmente cumpre com seu papel quando intenta nos destruir. O fato objetivo é que ficamos comodamente dialogando dentro de nossa bolha, trocamos  a organização popular, partidária e sindical pela vida nos gabinetes parlamentares ou no aparelho burocrático, reduzimos a luta política à via institucional. Ao fim e ao cabo, ficamos na janela “vendo a banda passar”.

Porque é o partido hegemônico, a falta de rumo do PT deixa atônitas as massas trabalhadoras, atinge todas as organizações do campo da esquerda, agravando uma crise (estrutural e programática) que vem desde antes dos idos de junho de 2013 que desaguaram no golpe de 2016 e repercutem até hoje. Por isso, a crise do PT não diz respeito tão só aos seus dirigentes, pois, afetando toda a militância progressista e de esquerda, atinge a luta contra o bolsonarismo, a urgente defesa da democracia, e adia ainda mais a batalha ideológica, sem a qual dificilmente voltaremos a ter presença junto às grandes massas, ademais de estarmos fugindo à nossa missão histórica.

A História será muito severa em seu julgamento sem sursis, se não mudarmos a rota de nosso voo.