A cura da doença: Feliciano Dessana e os Kokama

“Para curar uma doença / É preciso conhecer / a doença / É preciso criar o mundo /

desde o começo /e ver a doença nascer / para então curar (Dessana Dessana, 1975) 

Quando pintou com tinta guache, em 2016, o quadro para a exposição do Museu da Amazônia (MUSA), em Manaus, o artista plástico Feliciano Lana, um sábio Dessana, talvez não imaginasse que estaria retratando ali sua própria morte, aos 83 anos, ocorrida nesta terça (12), vitimado pelo coronavirus. Lá, dois japus de grande porte, de asas abertas e caudas longas, sobrevoam a floresta em direção à Yamilin Wii –  a Casa da Noite –  cada um segurando o punho de uma rede. Dentro dela o corpo de um indígena, que pode simbolizar tantos outros, muitos outros, abatidos nos rios e igarapés da Pan-Amazônia. Dia após dia cresce o número de mortos, prenunciando catástrofe similar a dos tempos coloniais.

O japu da noite denominado de Ñamiri Kumurõ tem voado sem cessar, levando corpos para o seio do Criador, o Yebá Goãmu, enquanto o capitão Bolsonaro cancela o churrasco que havia marcado, passeia sorridente de jet-ski pelo lago Paranoá e muda o segundo ministro da saúde, por não aderir ao seu plano genocida de tratar uma epidemia, responsável até agora por 15.000 mortes em todo o Brasil.

Kokama camuflados

E daí? Na quarta (13) foi a vez de Marilene da Cruz Soares, no Alto Solimões e do cacique Messias Martins Moreira, em Manaus, somando 36 Kokama falecidos, segundo o Boletim Nº 01 das Organizações Kokama, que denunciou o Hospital de Tabatinga por ocultar a identidade de Marilene registrada como “parda”.

É verdade que como estratégia de sobrevivência, num passado recente, os Kokama se camuflaram de tal forma que Darcy Ribeiro os considerou extintos desde 1946. Mas depois dos anos 1980, reaparecem no cenário regional. Em janeiro de 2009 ministrei aulas para 26 alunos Kokama na IV Etapa do Curso de Licenciatura Intercultural para Professores Indígenas do Alto Solimões da Universidade do Estado do Amazonas, um dos quais era Francisco Guerra Samias, da aldeia Sapotal, que estimou em 18 mil os Kokama espalhados por diversas comunidades.

No séc. XVI, eles habitavam o Alto Solimões, quando por lá passou o bergantim de Orellana, em 1540, contra quem lutaram usando um propulsor de dardos – um tipo de zarabatana sofisticada que despertou a curiosidade de espanhóis e portugueses. A arma caiu em desuso e desapareceu até que, em 1960, o etnólogo francês Raphael Girard, em visita à aldeia Unyurahui, no Peru, encontrou um único exemplar guardado numa viga do teto da maloca. “Se vocês não usam mais, para que guardar” – ele perguntou. O Kokama Bernardo Romaina respondeu com sabedoria: “Para não esquecer”. O teto da maloca era o seu museu.

Foi para lembrar o cacique Messias, de 53 anos, que os Kokama decidiram batizar com o seu nome a escola em construção, onde realizaram, na quinta (14), a cerimônia de despedida com danças e cantos sagrados. O hino nacional brasileiro foi entoado em Tikuna, uma das 14 línguas faladas no multiétnico Parque das Tribos, na periferia de Manaus, onde convivem cerca de 2.500 indígenas de 35 etnias diferentes. A Prefeitura permitiu excepcionalmente o velório, mas o caixão foi embrulhado em película aderente, depois de lacrado, em razão da morte por coronavirus.

Foi para não esquecer que, no curso ministrado em 2009, os alunos elaboraram uma espécie de guia de fontes orais para a história Kokama, localizando nas aldeias cerca de 100 velhos, falantes da língua ameaçada de extinção. Eles foram entrevistados com base num roteiro de perguntas construído em sala de aula. Depois disso, com a orientação da linguista Ana Suely, os professores começaram a ensinar a língua às crianças nas comunidades Nova Jordânia, Santa Maria e Monte Santo.

Pan-Amazônia

Os dois japus com sua rede sobrevoam aldeias de 33 etnias da Pan-Amazônia, onde ocorreram mais de 110 mortes por coronavirus, descontadas as subnotificações, segundo mapa organizado pela Coordenação das Organizações Indígenas da Cuenca Amazônica (COICA) e a Rede Eclesial Panamazônica (REPAM). As duas áreas críticas são o rio Negro e o Alto Solimões.

No Alto Solimões, além dos Kokama, o coronavirus está matando muitos Tikuna, entre eles o primeiro médico da etnia, Cleubi Florentino, 36 anos, da aldeia Feijoal, na fronteira com o Peru, onde vivem 4.500 indígenas. Lá, um pastor de mente cloroquinada da Igreja Mundial, seguindo a orientação de Bolsonaro, realiza cultos para 400 pessoas, desrespeitando o isolamento social. O professor Sansão, liderança Tikuna da Comunidade Filadélfia, relata que os parentes têm medo de morrer no hospital, abandonados e desfigurados.

No Rio Negro, os japus sobrevoam mais de 700 pequenas povoações em território brasileiro, onde vivem cerca de 40 mil indígenas de 22 etnias. Um boletim epidemiológico emitido diariamente nas redes sociais pelo presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), Marivelton Baré, atualiza os dados. No dia 14 de maio já haviam sido confirmados 219 casos, com 10 óbitos e 15 recuperados. A FOIRN participa do Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19 de São Gabriel da Cachoeira, juntamente com o Instituto Socioambiental (ISA), o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI-ARN) e outras instituições.

A “Campanha Rio Negro, nós cuidamos” promovida pela FOIRN usa o sistema de radiofonia para divulgar mensagens educativas, que são traduzidas por voluntários para as mais de 20 línguas indígenas, orientando sobre o isolamento social, as barreiras sanitárias, o uso de máscaras e de luvas para evitar a contaminação. O antropólogo Renato Athias, com longa experiência na região, se refere a uma vídeo conferência organizada no sábado (9) pela Associação Saúde Sem Limites (SSL), do qual ele faz parte, para tentar evitar as mortes, uma das quais teve repercussão internacional: a de Feliciano Lana.

Espírito livre

Embora a atroz Regina Duarte, Secretária de Cultura, o ignore, no estrito senso de ignorância, Feliciano já realizou exposições na França, Áustria e Alemanha, a última no Museu de Etnologia de Frankfurt. Escreveu e ilustrou o livro A origem da noite & Como as mulheres roubaram as flautas sagradas, que tive a honra de prefaciar. Com ele estive apenas três vezes: uma em companhia do escritor Márcio Souza e do poeta Aldisio Filgueiras, no TESC, em Manaus; a outra em sua casa no bairro Areal, em São Gabriel, levado pelo antropólogo Beto Ricardo do ISA; a terceira com a professora da Universidade de Oslo, Eva Johannessen, não lembro se em São Francisco, onde morreu, ou em São João, no rio Tiquiê, onde nasceu.

Esses encontros esporádicos foram suficientes para apreciar de perto a genialidade de Feliciano Lana, cuja versão sobre o mito de origem do mundo foi encenada no Teatro Experimental do Sesc de Manaus, adaptada por Márcio e Aldisio, com música de Adelson Santos. A cantata Dessana, Dessana ou o Começo Antes do Começo estreou no Teatro Amazonas com 18 atores, tendo Feliciano participado na montagem, dando sugestões de encenação dos rituais, além de elaborar o grafismo usado na cenografia.

Ainda hoje ecoa na memória a melodiosa cantata, evocando a narrativa mítica de criação do mundo.

“Hoje eu encontrei / o meu lugar na terra / a minha pele é vermelha / e tenho coragem de sobra. / Dessana, Dessana, / filhos do Alto nós somos / Dessana, Dessana, / como o vento nós voamos. /  Dessana, Dessana / lança teu espírito livre”.

Passa a mão aqui no meu braço: fico arrepiadinho com esses versos de uma extraordinária beleza e sabedoria, que permanecem atuais nesses tempos de coronavirus:

“Para curar uma doença / É preciso conhecer / a doença / É preciso criar o mundo / desde o começo /e ver a doença nascer / para então curar. / Assim o mundo / é criado toda vez / em que há uma cura.

Os versos nos remetem ao pesadelo do bolsovirus, com uma receita para combatê-lo:

Para destruir uma maldade / é preciso conhecer / a maldade. / Assim o mundo é criado / todas as vezes / em que uma maldade / é vencida”.

No segundo ato, o mito é atualizado com a chegada do colonizador: “Cuidado com essa pele branca / que desbota e queima com o sol / Cuidado com essa pele branca / que mente e ilude com terror.

Feliciano recria o mundo para curá-lo e vencer a maldade reinante. Que Yepá Buró – a Avó do Mundo – atenda o apelo da escritora indígena Rosi Waikhon e receba no Dabucuri do Infinito esse desenhador de sonhos e mestre conhecedor Kenhiporã.

P.S. Agradeço a Muriel Saragoussi e Elvira Eliza França pela lembrança da Exposição do Musa, que tive a oportunidade de visitar com minhas netas e um neto.

Referências:

  1. Lana, Feliciano Pimentel: A origem da noite & Como as mulheres roubaram as flautas sagradas” Edição bilíngue português / dessana. Manaus. EDUA. 2009 (2ª. edição). Funarte/Edua/ Museu amazônico, 2002 (1ª. edição)
  2. Freire, José R. Bessa: Narrativa gráfica Dessana: desenhando sonhos. Prefácio do livro de Lana, Feliciano Pimentel. A origem da noite (…) Versão condensada do prefácio publicada no Diário do Amazonas, 27/05/ 2007 (http://taquiprati.com.br/cronica/136-narrativa-grafica-dessana-desenhando-sonhos)
  3. Souza, Márcio & Filgueiras, Aldisio & Lana, Feliciano: Dessana Dessana. Manaus. Editora Valer. 2000. Com partitura de Adelson Santos. ( 727 pgs).
  4. Lana, Firmiano Arantes & Lana, Luiz Gomes, com ilustrações de Feliciano Lana (1ª. edição). Antes o mundo não existia. São Paulo. Livraria Cultura Editora. 1980 com introdução de Berta Ribeiro. (2ª edição revista e ampliada) Antes o Mundo não existia. Mitologia dos antigos Desana-Kehípõrã) São Gabriel da Cachoeira, FOIRN. 1995. Coleção Narradores Indígenas do Rio Negro (com notas de Dominique Buchillet) (3ª. Edição com 56 novas ilustrações).  Antes o mundo não existia. Rio. Travessa. 2019
  5. Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhiri. Antes el mundo no existía. La mitología heroica de los índios Desâna del Brasil. Barcelona. Prensa Universitária. 2000 ( traducción y estudio de Hélder Ferreira Montero y José Ignacio Uzquiza