Urda Klueger: a vovó, o Natal e outros bichos

“A melhor maneira de convencer alguém de alguma coisa é contando uma história”. (Jordan Peele, 2017)

– Talvez o leitor não saiba, mas a legislação impede que colunistas ignorem o Natal. Há milênios isso nos aflige como um fantasma que nos obriga a abordar o tema, o que cansa e transforma a festa do nascimento em “um martírio, um calvário, uma cruz” – ironizou o humorista português Ricardo Pereira em sua coluna na Folha SP (20/12/20). Efetivamente, a mídia não fala de outra coisa. O canal Lifetime, por exemplo, programou 36 horas seguidas de telefilmes natalinos. É dose. Por mais que alguém goste da Simone, ninguém aguenta ouvir pela bilionésima vez:

Então é Natal…  ♯♫♪

Neste ano fui salvo pelo gongo, graças aos livros da escritora e historiadora catarinense Urda Klueger que me foram enviados por ela em agosto, assim como ao isolamento da pandemia que abriu tempo para a leitura prazerosa. É sobre eles e sua autora que quero falar, adiantando que um dos muitos livros é justamente Crônicas de Natal e Histórias da minha avó, o que me permite não ficar fora-da-lei, como em anos anteriores, além de poder compartilhar a alegria de algumas histórias encantadoras.

Urda Alice Klueger, nascida em Blumenau (SC) em 1952, é uma feiticeira da palavra, uma sedutora contadora de histórias que escreve como quem conversa com amigos. Publicou centenas de crônicas em jornais como o Diário Catarinense, de Florianópolis, A Notícia, de Joinville, Expresso das Nove, de Portugal, e agora dá o ar de sua graça aqui nessa brechinha do Diário do Amazonas.

A gengivinha da vovó

O ar de sua graça ela reconhece ter herdado da avó Emma Katzwinkel Klüger, que veio da Lituânia aos seis anos de idade e fascinava a neta “por ser um poço sem fundo de histórias para contar e também pelo fato de não ter dentes”.  No verão, à tardinha, vovó Emma tirava um pepino plantado no quintal e, com uma faca afiada, cortava-o em fatias que comia com casca, sem sal e sem vinagre:

Eu podia ficar por horas acocorada perto dela, a espiar como suas gengivas sem dentes mascavam as finas fatias do pepino, que ela saboreava com tanto prazer.

A Vó Emma fugiu com toda a família de uma aldeia lituana sob o jugo da Rússia Tzarista. Foi para a Alemanha e do porto de Hamburgo viajou de navio para Lisboa. Atravessou o Atlântico, mas não pôde atracar no Rio de Janeiro por causa da epidemia de peste bubônica que ceifou vidas de muitos cariocas pobres. Daí navegou para Santos e finalmente para o litoral de Santa Catarina, nos confins de Blumenau, no Vale do Itajaí, onde a família se instalou e passou um perrengue: pobreza, fome, inundação, penúria, mas também poesia e humor.

O primeiro Natal no Brasil foi no meio do mato, a 30 quilômetros do povoadozinho mais próximo. Como celebrar a festa natalina em condições tão precárias? Acontece que “tudo era muito difícil, mas a magia ainda existia”. O pai de Emma esperou que seus filhos sentassem à mesa e sugeriu que virassem para cima os pratos emborcados. Milagre! Embaixo de cada prato havia um doce de Natal, um castelinho de açúcar colorido coberto de glacê branco. O velho Katzwinkel havia andado a pé 60 quilômetros para ir buscar “aqueles pobres doces” que alegraram a festa de seus filhos – uma “caminhada movida por sonhos, assim, deixam marcas para sempre”.

Outras histórias foram recolhidas por Urda como aquela contada por seu amigo Ivo Hadlich. O pai e a mãe dele com cinco filhos, na noite de Natal viram que o Weihnachtsmann – o Papai Noel – havia deixado presentinhos debaixo do pinheiro. Quando se deram as mãos para cantar “Noite Feliz”, uma das velinhas acesas incendiou a árvore e os presentes, a sala ficou cheia de fuligem. A família não se deu por vencida. Foi para fora de casa e cantou debaixo de um céu estrelado.

“O Ivo jura que aquela foi a única vez em que viu o Weihnachtsmann de verdade, num caminho aberto entre as estrelas, tocando um trenó puxado por renas”. O leitor não duvida disso.

Natal na África

São histórias deliciosas como “Um Natal na África”. A irmã da autora, Mariana, mora em Joanesburgo/África do Sul, mas sua filha Rosa, que vive com o marido e o filho no país vizinho, Moçambique, decidiu passar o Natal com a mãe. A viagem de ônibus demora oito horas. Acontece que a estrada ficou congestionada e à meia noite o ônibus ainda não havia atravessado a fronteira, num lugar perdido cercado por um barranco e uma lagoa cheia de jacarés. As pessoas acamparam, fizeram fogueira, cantaram cantigas natalinas. No meio da noite, surgiu Papai Noel distribuindo chocolates e guloseimas. Era um comerciante português que vivia nas redondezas.

Urda vai “lavar a égua” se apresentar alguma dessas histórias no programa do GNT Que história é essa, Porchat, como a relatada na crônica “Por causa do Papai Noel”. Vestida de branco da primeira comunhão, ela passeava em sua bicicleta nova, virou a cabeça para ver um Papai Noel e continuou pedalando. Caiu num ribeirão coberto de lodo, onde desaguavam todos os esgotos de Blumenau. Sofreu fratura dupla, perdeu dois anos de aula e aproveitou para mergulhar na literatura francesa. Essa história virou filme em 2006, roteirizado por Mara Sala, vencedora do prêmio de melhor roteiro nacional do Ministério da Cultura, exibido em 40 festivais de vários países.

Essa é a nossa Urda, que cursou doutorado em Geografia na UFPR e incursionou na pesquisa histórica, produzindo vários livros, artigos científicos e crônicas sobre os sambaquis e os povos que ocuparam o território de Santa Catarina há mais de seis mil anos. O Povo das Conchas com desenhos rupestres, fotografias, mapas e sítios arqueológicos traz histórias dos ancestrais dos Xokleng e dos Guarani, com quem a autora, filha de imigrantes, se sente umbilical e politicamente ligada.

Atahualpa

Capaz de encontrar sua própria humanidade nos bichos, Urda escreveu vários livros que falam de sua paixão por cães, gatos, passarinhos. Seu “grande caso de amor” está relatado em Meu Cachorro Atahualpa, protagonista de uma série de textos que falam dessa relação amorosa. Foi amor à primeira vista, iniciado no encontro em uma agropecuária. Atahualpa a flechou e a derrubou na hora com aquela doçura no olhar que só os cães têm.

Já em Nossa família aumentou, a estrela é a meiga gatinha Manuelita, que brinca de trapezista pelas prateleiras, se enrola nos fios elétricos e quando se invoca desaparece por alguns dias. Outro livro – Trinados para o meu passarinho – registra 21 histórias onde desfilam cachorros, gatos, peixes, patos, cisnes, garças e pombos.

Atahualpa é, de repente, aquele cachorro da infância que faz parte da nossa história afetiva. E dona Emma? Depois de ler as histórias legadas à sua neta, ela passa a ser avó de todos nós. Podemos ouvir as cigarras rebentarem de tanto cantar, enquanto gengivinhas sem dentes mastigam fatias fininhas de pepinos novos em língua lituana.