PIRULITO E O DESEMBARGADOR: MOLESTANDO CRIANÇAS

PIRULITO E O DESEMBARGADOR: MOLESTANDO CRIANÇAS

Ai do homem que escandalizar uma criança. Se a tua mão direita te serve de escândalo, corta-a e lança-a fora de ti;

porque é melhor que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno (Mateus, V: 29-30).

Ninguém desconfiava que o velho Pirulito molestava sexualmente sua própria filha, a Tininha, que tinha 5 ou 6 anos. Afinal, ele era insuspeito: puxava a reza em família antes e depois de cada refeição, era zelador do Apostolado da Oração e toda primeira sexta-feira do mês arrastava seu filho, o Pirulitinho para, juntos, assistirem a missa das 5 hs da manhã. Comungava, contrito, com a medalha do Sagrado Coração de Jesus no peito e a fita vermelha em volta do pescoço, cantando:

– Levantai-vos, soldados de Cri-iiiisto. Eia avante nas sendas da glória.

Por isso, o bairro de Aparecida ficou perplexo quando sua cunhada, dona Neném, esbaforida, saiu correndo pelos becos gritando:

– Eu vi! Eu vi! Eu vi o pirulito do Pirulito. Ele estava na rede com a filha fazendo imoralidade.

Ninguém o conhecia pelo nome de João. Durante anos, percorreu as ruas da cidade vendendo pirulitos enrolados em papel colorido enfiados em um tabuleiro furado. Fazia ponto na Praça da Saudade, esperando as crianças saírem da escola. O apelido ficou mesmo depois que, já viúvo, arrumou um emprego de lavador de garrafas e empacotador, com carteira assinada, na Fábrica Miranda Correa, que fabricava a cerveja amazonense XPTO. Lá era tido como trabalhador assíduo e responsável.

Por isso, foi difícil admitir a denúncia da dona Neném. Na época, Pirulito, católico praticante, homem de fé, soldado de Cristo e funcionário exemplar desqualificou a cunhada, jurando que era doida, que estava inventando, despeitada porque ele, viúvo, se recusara a casar com ela. Em quem acreditar? O bairro se dividiu. Na ocasião, ninguém ouviu a Tininha.

Esqueletos da família            

Muitos anos depois, durante caminhada no calçadão da Ponta Negra, Tininha já adulta confirmaria tudo ao desinformado irmão que chorou copiosamente, culpando-se por não ter podido protegê-la do pai libidinoso. Ela contou que o abuso começara em 1950 e caqueirada dentro da fábrica de cerveja no Plano Inclinado, réplica de um imponente castelo da Baviera com seis andares, torre e escada de caracol de 200 degraus, construído em 1910, no esplendor da borracha, às margens do igarapé de São Raimundo, próximo ao terminal do bonde. Para lá ela foi levada pelo pai num domingo festivo.

– Lá de cima dá pra ver toda a cidade – convidou Pirulito, que trabalhava no térreo. Subiram e lá abusou da menina, pela primeira vez, prometendo dar-lhe rótulos da XPTO com a figura da águia, além de pinchas –  tampinhas da garrafa com o mapa do Amazonas e seus rios. O abuso se repetiu muitas vezes e só parou graças aos gritos de dona Neném. Mas a polícia arquivou a queixa como era de se esperar em uma sociedade extremamente machista. A Cervejaria Miranda Correa foi vendida para a Brahma, Pirulito morreu impune, dona Neném, com fama de doida, subiu pela última vez o Boulevard Amazonas, Pirulitinho e a irmã ficaram com seus traumas nesse vale de lágrimas.

A doença do Pirulito – que se existe inferno deve estar lá – é mais frequente do que se imagina, embora “os esqueletos guardados no armário” fiquem escondidos pelo “muro de pedra entre os membros das famílias” que, como no poema de Drummond, nem sempre permitem “escalpelar os mortos”.  O caso é real, mudei o cenário para não expor os dois irmãos protagonistas que estão vivos. Ele veio à tona, quando na última quarta-feira (21) um escândalo similar explodiu na mídia do Amazonas, envolvendo um avô e sua neta.

O mal pela raiz

A advogada Luciana Pires denunciou ao Ministério Público (MP/AM) o desembargador aposentado Rafael de Araújo Romano, 73, seu sogro, de ter abusado sexualmente da própria neta desde os 7 anos, quando morou um tempo na casa do avô, até recentemente durante as visitas que o avô lhe fazia, uma das últimas em Fortaleza (CE) em 2016. Por medo, a menina, que tem agora 15 anos, teria silenciado. No dia 8 de fevereiro último, em visita a uma amiga em um hospital, ela decidiu pedir socorro à mãe.

Contou que o avô tocava nas suas partes íntimas, de forma demorada. Percebeu o abuso quando estava sentada em uma cadeira de balanço dentro do quarto dele, que começou a alisar suas pernas até à calcinha. “Esse homem chegava a machucar os seios da minha filha, além de arranhá-la com a barba. Algumas vezes cheia de marcas, mas nunca imaginaríamos que fosse abuso” – disse a mãe.

Acontece que Rafael Romano, como o Pirulito, é insuspeito. Entrou para a magistratura em 1977 e durante três décadas foi – ironicamente? – titular do Juizado da Infância e da Juventude no Amazonas e relator da “Operação Estocolmo”, em 2012, que investigava uma rede de exploração sexual de menores no Amazonas, com envolvimento de políticos, empresários, parlamentares e do prefeito de Coari, Adail Pinheiro, que foi por ele condenado a mais de 10 anos de prisão por pedofilia.

O pai da menor, Rafael Romano Jr., também advogado, inicialmente acreditou na filha e entrou em parafuso, indignado com o assédio, segundo os “prints” da conversa mantida com Luciana e por ela divulgado. Mas depois publicou nota repudiando a acusação. A mãe, que levou a menina a um psiquiatra antes de fazer a denúncia, já foi tachada de “insana” e de “vingativa” por estar se divorciando do filho do desembargador, que jura inocência. Em quem acreditar?

Linchamento

A família está sofrendo com o linchamento nas redes sociais, onde sempre aparecem “justiceiros” exigindo condenação. O acusado, no entanto, merece o benefício da dúvida, especialmente porque o Brasil não esqueceu a acusação improcedente feita em 1994 aos proprietários da Escola Base em São Paulo massacrados pelo sensacionalismo da mídia. A acusação não tinha qualquer fundamento, a Rede Globo e outras emissoras foram condenadas a pagar indenização, mas a escola foi depredada e várias vidas já estavam destruídas.

Manifestar dúvidas não significa desqualificar a denúncia, que parece consistente, mas exigir investigação séria e rigorosa para apurar o ocorrido, o que nem sempre acontece nesses casos, devido à natureza dos fatos, ao machismo e ao corporativismo do Judiciário. Se o desembargador, porém, for inocente – ele pode ser inocente – sua inocência não será comprovada com insultos tachando a mãe como “doida e vingativa”.  De qualquer forma, o depoimento da menina merece ser levado em conta.

Mas se for verdade a acusação – pode ser verdade – o desembargador, como o Pirulito, seria um doente, o que não o exime de responsabilidade e, portanto, de punição, na medida em que teria consciência de seu estado patológico. Nesse caso, melhor seria ter seguido o conselho do evangelista Mateus, cortando o mal pela raiz para não escandalizar a criança, a quem ele tinha a tríplice obrigação de proteger: como adulto, como juiz e como avô.