O outro Brasil: Manuel torneiro, escritor, inventor

Ele é um personagem. Garboso, elegante, inteligente, criativo. Dá bolo em desembargador. Manoel Santana de Assis, 82 anos, baiano, negro, torneiro mecânico, migrou ainda jovem para o Rio, onde conheceu Maria Cruz, neta de uma índia, por quem se apaixonou. Moram em Anchieta, um bairro da Zona Norte cercado por morros, três filhos e dois netos. Depois de 50 anos de trabalho, ele se aposentou. Agora é escritor, inventor e compositor. Um artista.

Escreveu romances e compôs a trilha sonora para o filme que roteirizou. Idealizou a Nubem Inventos, empresa destinada a fabricar e comercializar seus produtos como a Keukiria, uma marca de sandália para idosos inspirada “no conforto indígena para uma civilização urbana”, registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Desconhece Galileu, mas usou o torno para fabricar a “rosca condutora de produtos” e o “pendagolo”, uma geringonça que permite estudar o movimento oscilatório, isso sem haver lido “Horologium oscillatorium” do holandês Christiaan Huygens.

Se não é de leitura de livros, de onde, então, Manoel tira tanta inspiração? Ele estudou o primário no Colégio Estadual Luiz Tarquínio e depois fez o curso de torneiro mecânico no SENAI, em Dendezeiros, Salvador, na unidade inaugurada em 1949. Lá aprendeu o sistema métrico decimal, noções de geometria, os fundamentos de mecânica e a operação de tornos, além dos procedimentos e normas técnicas de qualidade, saúde e segurança.

Quando Salvador ficou pequeno, o baiano trocou Itapagipe pelo Rio de Janeiro, onde buscou se aperfeiçoar no ofício. Pretendia retornar, mas seu coração foi fisgado por flechada certeira de Maria Cruz, sua eterna namorada. Aí trabalhou como torneiro mecânico na fábrica alemã Treu S/A Máquinas e Equipamentos, na White Martins e na Central Eletronuclear em Angra dos Reis, na qual foi eleito operário-padrão. Cinco décadas no torno, entre polias, cones, eixos, roscas, esferas e cilindros.

A alma da pedra

A experiência acumulada na existência, no trabalho e na vida, é o principal ingrediente de seus romances. Ele diz que não escreve sobre temas políticos, religiosos ou históricos, mas cria enredos românticos com aventuras de amor e muito suspense. Quando lhe perguntei sobre suas leituras e fontes inspiradoras, me respondeu:

– Não leio muito. Na escola, quando devia formar hábito de leitura, passei muita fome. Eu ia para a aula a pé, era um caminho longo, já chegava cansado, ansioso pela merenda, que em geral era uma ou duas bananas. Livros, só a Bíblia e obras sobre a segunda guerra mundial. Mas acredito na minha inspiração. Observo e estudo tudo o que vejo.

Foi assim com as pedras. Ele costuma tomar banho em Angra dos Reis, onde nasceu sua Maria. Lá na praia de Itaorna, havia uma pedra sobre a qual deixava a roupa nos anos 1970, quando a estrada Rio x Santos foi inaugurada. Constatou que a pedra, como um menino, estava crescendo. “Conversa fiada. Deve ser a erosão do solo. Se pedra crescesse, o Pão de Açúcar estaria no céu” – lhe disseram. Manoel observou a rocha ao longo de quatro décadas e concluiu:

– A pedra respira, tem alma, faz parte do reino mineral, que não é um reino morto, é vivo como o reino vegetal e animal. A pedra nasce, cresce pra baixo, pro lado e pro alto e um dia morre, como tudo no universo – disse ele, que chegou às leis da dialética de Hegel através da leitura do mundo e não dos livros. Nunca visitou o Museu de Geologia, em Porto Alegre (RS), que guarda em seu acervo peças de todo o Brasil e de mais de 50 países. Lá se confirma que, em certas condições, as pedras crescem em processo lento, que pode durar meses, anos, décadas, séculos.

A índia guerreira

– Não me considero escritor, mas gosto de escrever – diz ele que foi entrevistado pela Rádio Nacional quando concluiu o romance “A Cordilheira das Reservas Verdes”, cuja protagonista é Neiciminole, uma índia destemida que mora numa aldeia na antiga Serra da Piraquara, na vertente mais alta da Serra do Ibracuí ou do Frade.

No romance desfilam personagens como o delinquente Grego, a empregada Lhelheca, Ranza e Ralph, o pesquisador que se embrenha na mata atlântica em busca de suas origens afro e indígenas e acaba encontrando Neiciminole, por quem se apaixona e com quem casa. O casal passa a lua de mel em Angra, como aconteceu na vida real com o autor e Maria da Cruz. Quais os problemas que enfrentará Neiciminole ao se defrontar com a família de Ralph? Como será a vida do dois, que pertencem a culturas tão diferentes?

Isso você vai saber no filme com o título modificado para “A Cordilheira da Reserva Indígena”, um projeto aprovado pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE), com orçamento de R$ 813.313,84 e autorização para captar recursos mediante patrocínio (Diário Oficial da União 23/05/2007). A trilha sonora foi composta pelo próprio Manoel Santana, com a melodia de uma flauta atravessando grande parte do longa-metragem, além de composições como “Os três reatores atômicos”, “Quilombola”, “Tem que ir lá”, “Fome Zero”, “Quem bate” e “Broto lindo”, entre outras.

O filme não foi realizado porque o tempo de captação de recursos foi muito curto, venceu em 31 de dezembro de 2007. Mas agora dois cineastas indígenas demonstraram interesse pelo roteiro: o guarani Alberto Alvarez e o kuikuro Takumã. Quanto ao livro, ainda não foi editado, existe apenas um exemplar impresso artesanalmente, ilustrado com fotografias da região sul do Rio de Janeiro feitas pelo próprio Manoel. Está sendo traduzido ao inglês e ao mandarim. Tem uma versão também para uma minissérie “Neiciminole das Reservas Verdes”.

Navio negreiro

No momento, enquanto batalha para fazer o filme e editar o livro, Manoel escreve “O último navio negreiro”, a história de um capitão que desembarca na vila Maitá, também conhecida como Pedra Furada. É um romance de capa e espada. Ele lembra que, quando jovem, fabricava espadas na oficina onde trabalhava e, no intervalo, simulava luta com os colegas. Quando lhe perguntei se havia lido “O navio negreiro” de Castro Alves, respondeu que não, para não ser acusado de plágio. Foi aí que eu recitei um trecho sobre a monstruosidade da escravidão que até Deus duvida:

“Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura… se é verdade.

Tanto horror perante os céus?

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!”

Manoel mergulhou também na vida dos avós de Maria Cruz que viveram na segunda metade do séc. XIX, de um lado, uma negra e um mestiço. De outro, o cabo-verdiano Chico Verde e a índia Duvirge, que enfrentou os jagunços armados na Praia Brava. Ela está sepultada em Itaorna, não foi esquecida, como contou um ancião solitário que mora na Praia dos Velhos.

Quem me apresentou ao torneiro escritor foi a amiga comum Vera Lúcia Ramos, assistente contábil. Ela diz que Maria Cruz e Manoel são tão unidos, que na hora de cozinhar, um segura a panela e o outro mexe o feijão. É ele que pinta o cabelo dela, que está sempre bonitinha na cadeira de roda, onde um derrame a deixou sentada.

Meu Deus do céu! Nunca o nosso país precisou tanto da inteligência de um torneiro mecânico nordestino, autodidata e cheio de projetos, capaz de inventar outro Brasil e de reescrever a nossa história, para assim renovar as nossas combalidas esperanças. É admirável sua persistência, sua vontade de transcender e de furar o  cruel bloqueio da discriminação. Esse é o outro Brasil, desarmado, tolerante, solidário, sagaz, alegre, que se contrapõe ao Brasil truculento, trapaceiro e triste, o país das desigualdades sociais, das injustiças, da pilantragem governamental que fala com voz de marreco.

A vida de Manoel daria um filme, um filme dentro de vários filmes, como a matrioska, que reúne várias bonecas de diversos tamanhos, umas dentro das outras. Um filme para desnudar o Brasil.