O foro ou o furo íntimo do capitão?

O foro ou o furo íntimo do capitão?

Peço ajuda aos universitários. Alguém aí sabe me explicar o que é “foro íntimo”? O porta-voz da Presidência da República, general Otávio do Rêgo Barros, visivelmente constrangido, pagou o maior mico quando, cumprindo ordens do capitão, anunciou que a exoneração do ministro Gustavo Bebianno foi uma “decisão de foro íntimo” do presidente Jair Bolsonaro. Aconteceu nesta segunda (18). Sei que a notícia envelhece rapidamente, mas quem tem coluna dominical não pode deixar de comentar fato ocorrido dias antes, embora isso possa ser interpretado como desvio de coluna.

A gente ouviu bem a voz do porta-voz? Ele falou “foro íntimo” ou “furo íntimo”? Se foi o furo, não queremos penetrar na intimidade do capitão, por respeito, para evitar mais constrangimentos. A coluna é pudibunda. Nada de indecências. Mas se foi o foro, merece críticas. De qualquer forma, ambas as possibilidades serão aqui examinadas perfunctoriamente na acepção que dá ao termo perfunctório o  jurista amazonense Bernardo Cabral. Primeiro o foro e depois o furo.

As intimidades

Os universitários me informam que “foro íntimo” significa motivos de ordem pessoal, que não podem ser revelados publicamente. Trata-se de um direito individual à intimidade. Ou seja, quando o presidente invoca esse direito, ele quer se eximir de explicar ao país as razões pelas quais descartou um ministro que, minutos depois de exonerado, foi por ele elogiado em mensagem televisiva: “Continuo acreditando na sua seriedade e qualidade do seu trabalho. Reconheço também sua dedicação e esforço durante o período em que esteve no governo”.

Epa! Peralá! Por que então demitir um ministro com tais qualidades em um ministério já tão damaresmente capenga? O presidente tirou o próprio loló da seringa, obrigando seu porta-voz a “usar em público a indecente explicação”, quando “o general deveria saber perfeitamente que interesse público prevalece, sempre, sobre qualquer questão de foro íntimo” – escreveu Clóvis Rossi na Folha de SP (19/02).

Reconhecemos que não é fácil portar a voz do presidente Jair Bolsonaro, tá ok? Se o capitão rejeitasse um prato de feijão com brócolis, couve-flor e cebola, aí sim, para não falar nas flatulências provocadas por aquela gororoba, podia alegar “foro íntimo”. Na vida privada, na intimidade do lar, Jair goza de foro íntimo, mas não assim o presidente no exercício do seu mandato, cujo dever é explicar ao país os motivos da demissão, porque aqui “o único critério que vale é o interesse público” – como defende Clóvis Rossi, que é uma espécie de Ricardo Boechat da palavra impressa:

– “Ao esconder-se atrás do “foro íntimo”, o presidente continua devendo explicações sobre as suspeitas de trambiques em que estão envolvidos seu filho Flávio, seu ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio e seu ex-ministro Bebianno”.

Se a moda pega, o motorista Fabrício Queiroz e o senador Flávio Bolsonaro também podem alegar “foro íntimo” para ocultarem da Polícia Federal o destino do dinheiro público no depoimento que até hoje inexplicavelmente não deram, produzindo fedor de enxofre e de impunidade. Aí já não é mais foro, é furo íntimo, como sinalizam os universitários com o gráfico do triângulo vocálico no qual uma vogal se transforma na outra.

O furico

Os linguistas denominam de alçamento vocálico ou abaixamento vocálico ao processo de mudança do grau de abertura de vogais: a escrita registra coruja, governo, Pernambuco, mas em muitas regiões do Brasil, devido ao tal alçamento, se fala curuja, guverno, Pernambucu. No entanto, o significado não muda. A curuja continua filosofando e o guverno continua governando (ainda que em se tratando de Bolsonaro… não sei não).

Trata-se de um fenômeno presente na formação da própria língua portuguesa desde a época da província romana da Lusitânia. O “abaixamento vocálico” do latim bucca deu boca em português, embora a higiene da dita cuja continue sendo bucal. Gil Vicente, no Auto das Ciganas, em 1526, se refere a asno e rosa, grafando aznu e ruza. Esse fenômeno nos permite conjecturar que Bolsonaro pronunciou “foro” e essa versão oral foi tomada ao pé da voz pelo porta-voz, natural de Recife, que não percebeu que o capitão baixou suas vogais para tirar o seu Pernambucu da reta e exibir o furo íntimo.

Essa é uma das especificidades das línguas românicas, incluindo o português, na trajetória documentada da língua, como nos mostra a gramática histórica ao analisar aspectos morfológicos e fonéticos. Um processo similar já havia sido descrito por Joseph Oversea Toomuch no prefácio da tese de Mary Helen Look Understanding phonology – the phonological constituents in Pernambouc Portuguese defendida em Harvard University. Sua colega Joy Reboll chamou a atenção para o fato de que, em alguns casos, essa alternância da altura das vogais pode mudar o sentido da palavra. Foi o caso de foro para designar furo.

Ficamos então combinados assim: as alegações de Bolsonaro foram de furo íntimo ou talvez, considerando a pequenez da coisa, de furico íntimo.

Na realidade, furo aqui tem várias leituras, todas elas igualmente indecentes. Pode ser furo jornalístico que ele deu com a rasteira despudorada no ministro. Ou furo como “roubada”, no sentido da canoa furada em que ele entrou. Ou ainda de furo como na expressão “ele furou”, não cumpriu o que prometeu. Ou ainda como papo furado, algo que engana os trouxas.  Ou qualquer outro sentido que o deputado e ator Alexandre Frota queira atribuir (cartas para a redação). Pode ser tudo, menos foro íntimo.