O bom político

O bom político

Por Ascânio Seleme (O GLOBO) – Edição 03/06/2018

Ele existe e está em todos os lugares, inclusive no Congresso Nacional

Erram enormemente os que, por tolice ou falta de visão histórica, pregam intervenção militar no Brasil. De um modo geral são pessoas truculentas, de baixa escolaridade e má educação. Olham para o Congresso e só veem políticos corruptos, miram o Planalto e enxergam tão somente escândalos. Misturam as duas leituras ligeiras do cenário político e não conseguem pensar em outra alternativa. Não conseguem ver um lado positivo. E ele existe, é sólido, vai jogar o Brasil no futuro e atende pelo nome de bom político.

O bom político está em todos os lugares, no Congresso, nos ministérios, no Palácio do Planalto, nas assembleias legislativas, nas câmaras municipais e nas sedes dos governos estaduais e municipais. Ele é correto, age sempre pensando no povo, no seu constituinte, no próximo. Tem ideologia, mas isso não o separa da razão nem o segrega. Ele pode pensar diferente de você, do caminho que você entende melhor para o Brasil, mas o seu objetivo é parecido com o seu. Quer que o país cresça, quer que a desigualdade diminua, quer saúde, educação e segurança para todos. E por isso ele luta.

Ele é democrata. Defende até o fim a sua causa, mas sabe perder. E sabe fazer alianças em favor do bem comum, do ponto médio, do possível. O bom político pode ser um líder, mas também pode não ser. Pode ser um bom orador, mas também pode não ser. Foi ele que construiu e consolidou as instituições nacionais. Ele escreveu a Constituição brasileira, que em outubro completa 30 anos e que deu personalidade ao Brasil, apesar de hoje ser mais anciã do que cidadã, por ter olhado muito mais para trás do que para frente.

O bom político, caro leitor, existe. No Brasil ele é Marina, é Alckmin, é Ciro, é Haddad. No Rio, ele é Miro, é Chico, é Molon. Ele é Luiz Paulo, é Freixo, é Comte. Ele foi Marielle. E são outros tantos que pensam de forma diferente, mas se completam. Uns são mais explosivos, outros conciliadores. Uns de esquerda, outros de direita, muitos são de centro. Todos são respeitáveis e merecem o voto do eleitor brasileiro. Como esses, outros bons futuros políticos vão se candidatar nestas eleições a um mandato estadual ou federal. Eles são o amanhã.

Você pode dizer que o bom político é minoria. Pode ser, não contei. Mas a culpa não é dele. É nossa, porque votamos errado. Mas, pior do que votar errado, é não votar. É entregar para outro decisões que cabem a nós, ao coletivo. É isso o que pedem os que gritam pela intervenção militar no Brasil. Querem que seu destino seja decidido por um general, que pode até ser um bom brasileiro, mas que sozinho não sabe nada. Acompanhado apenas por outros generais, sabe menos ainda. Você, leitor, sempre que tiver a ocasião, diga não aos que gritam por intervenção militar. Explique o equívoco ao equivocado.

Estes que estendem faixas e pregam a volta da ditadura têm a mesma cara. Olham ao redor e imaginam que um militar ou um mito poderá libertá-los de políticos corruptos. Estão enganados. Até mesmo Bolsonaro, que é daqueles que defendem a ditadura ideologicamente, prefere o voto direto. Mas, neste caso, por puro oportunismo. Bolsonaro sabe que numa ditadura ele seria um simples soldado, jamais um general.