Metade da tropa da PM está fora do patrulhamento

Metade da tropa da PM está fora do patrulhamento

A matéria refere-se ao Rio de Janeiro. E na PM do Amazonas qual será a realidade? Vou procurar saber.

Serafim Corrêa

Transcrito de O GLOBO de hoje dia 17.12.2018

Dados divulgados pela corporação mostram que 49,1% do total de 43.860 agentes estão afastados ou cumprem atividades administrativas. Especialistas alertam para a redução da capacidade de policiamento nas ruas

Quase metade do efetivo da Polícia Militar do Rio não está no patrulhamento das ruas. Dos 43.860 agentes na ativa, 22.324 fazem o policiamento ostensivo, que é considerado atividade fim na corporação. Os outros 49,1% da tropa estão afastados ou cumprem funções administrativas nos batalhões, nos hospitais e em outras unidades, o que é classificado como atividade meio. Os dados, obtidos junto à PM via Lei de Acesso à Informação, são referentes a maio deste ano.

Editoria de Arte Fonte: Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que o alto percentual de policiais desviados para funções burocráticas reduz a capacidade de atuação dos batalhões e, a longo prazo, pode provocar um colapso no policiamento. O 2º BPM (Botafogo), por exemplo, está entre os que têm o maior percentual de agentes em serviços internos: são 105 policiais dedicados à atividade meio e 200 no policiamento.

— Quando se destaca um percentual tão alto de policiais para o serviço interno, alguém vai ter que fazer trabalho extra, alguma escala vai ter que ser apertada. Na ponta, quem paga a conta é o policial que trabalha dobrado e o cidadão, cuja segurança é feita por um agente que, além de cansado, pode estar atuando de má vontade — diz o coronel da reserva Ubiratan Ângelo, ex-comandante da PM do Rio.

A explicação para a quantidade excessiva de agentes com cargos administrativos, segundo o coronel, pode ser a restrição de trabalho externo para alguns policiais.

— Qualquer comandante vai querer colocar o máximo de policiais na atividade fim, mas, às vezes, o agente está apto para o trabalho, mas tem restrições ao policiamento na rua por diversos motivos, desde doenças de pele até questões de saúde mental —explica.

O sociólogo Ignácio Cano, professor da Uerj e pesquisador do Laboratório de Análises da Violência (LAV), defende que as atividades administrativas deveriam ser feitas por civis, deixando os policiais livres para atuar nas ruas.

— A atividade meio é necessária, mas o ideal seria que não fosse feita pelo policial, como acontece na Polícia Civil. Infelizmente, isso vai contra o espírito de uma força militar, que quer ter para si o controle de todas as funções —avalia.

PROJETO NO SENADO

Um projeto de lei que tramita no Senado quer tornar obrigatório que, no mínimo, 80% do efetivo das polícias estaduais sejam empregados na atividade fim. No Rio, esse percentual hoje é de 50,9%.

Para o antropólogo e especialista em segurança pública Paulo Storani, ex-oficial do Bope, esse número alto de agentes em cargos burocráticos pode pôr o policiamento do estado em xeque.

— Por comprometimento da folha de pagamento e questões financeiras do estado, a polícia não contrata novos policiais. Assim, vai perdendo o efetivo (por licenças, aposentadorias e mortes), e joga o problema mais para frente. A consequência de sobrecarregar a tropa é ter um maior aumento das pessoas afastadas e uma crise, mais adiante, por conta dessa balança que não se consegue equilibrar. Se não for feito investimento em tecnologia e se apostar só em contenção policial, chegaremos a um colapso, a uma situação muito pior do que a que vivemos hoje —avalia Storani.

O porta-voz da PM, major Ivan Blaz, afirma que a corporação vem lutando para aumentar o efetivo por meio da reavaliação de licenças.

— Hoje, a corporação tem um grande número de policiais afastados por restrições médicas. A gente tem buscado fazer a reavaliação médica desses policiais para que eles possam voltar à atividade. Tivemos um aproveitamento de quase 70% de retorno de policiais, que estavam em casa e retornaram à atividade meio — diz.

O major acrescenta que, entre os policiais que foram destacados para atividade meio, há agentes que têm restrições por decisões judiciais. Além disso, segundo ele, há PMs lotados em unidades administrativas que atuam no reforço do policiamento em grandes eventos por meio do Batalhão de Polícia Burocrático (BPB).