Maria Helena Mateus: a dama da língua portuguesa

“Provemos esta nossa linguagem / e, ao dar da vela ao vento: Boa viagem”.

Sá de Miranda. 1538

– Será que cheguei ao fim da história da minha vida? – pergunta a linguista Maria Helena Mira Mateus ao final do livro de memórias Uma vida Cheia de Palavras. Muito conhecida no mundo universitário, ela já foi capa de uma revista brasileira, que a apresenta como “A dama da Linguística portuguesa”. Espalhou sementes de lusitanidade nas suas peregrinações pelos cinco continentes e por todas as regiões do Brasil, nas quais deixou amigos e devotos. Ministrou conferências e cursos, fundou associações, coordenou projetos de pesquisa, editou revistas, publicou livros, formou professores, criou discípulos, enfim, pintou e bordou.

O livro reconstrói sua vida acadêmica, a descoberta da linguística e a paixão pela fonologia. Mas não fica aí. Faz um ajuste de contas consigo mesma, um balanço crítico da trajetória pessoal, situando-a dentro do contexto político. Com humor e senso crítico, relembra a infância, a juventude, o colégio de freiras e a faculdade em um Portugal amordaçado pela ditadura salazarista e marcado pela guerra colonial, prisões e desejos reprimidos. Evoca maio de 1968 na França e a Revolução dos Cravos. Conta causos de muitos países por onde andou. Celebra os amigos. Discorre sobre o casamento, o nascimento e a educação dos seis filhos, cujos perfis salpicados de histórias deliciosas, ela desenha com refinada sensibilidade.

Álbum de Recordações

O filho Miguel, já falecido, para quem ela escreve no final do livro uma carta amorosa póstuma, vivenciou episódio que muito nos diz sobre a narradora. Numa das viagens ao exterior – ela vivia, então, sozinha – deixou o filho tomando conta do apartamento. Um policial olhou para a sacada do 5º andar e viu um vaso com a folha de cannabis sativa. Subiu, bateu à porta e pediu para ver. Nada de vaso. Desculpou-se e saiu. Ele não sabia que as varandas eram duas. Miguel correu para a outra, mas quando foi retirar a planta, ela escapuliu de suas mãos e caiu na rua bem aos pés do meganha, que já estava lá embaixo, mas retornou. Miguel só não foi preso porque “utilizou a sua melhor prosa”.

As histórias contadas com graça e sobriedade divertidas, de forma responsável, mas sem falso moralismo, tem um distanciamento crítico de quem, no colégio das Doroteias, foi aluna de “conduta exemplar com o peito coberto de medalhas de bom comportamento”. Nos corredores, andava “com os braços cruzados atrás das costas e abaixando a cabeça quando passávamos por uma freira”. Filha de Maria, do Apostolado da Oração e da Mocidade Portuguesa, nas missas era obrigada a usar o uniforme completo, cujo cinto obrigatório tinha “um grande S que marcava a nossa vinculação a Salazar. Deus, Pátria e Família”. Portugal acima de tudo, Deus acima de todos.

Recorreu ao seu “álbum de recordações” – coqueluche entre as adolescentes da época – denominado de “livro de curso”. Ali “escrevia os meus divertimentos da época: os rapazes que andavam atrás de mim ou por quem eu estava secretamente apaixonada”, com “contribuições de namorados, colegas, pais”. Cha Cha Cha, Salsa e Rumba eram “danças indecentes” que “desgostavam Jesus”. A homossexualidade sequer podia ser nomeada, “porque fugia à norma”. O proscrito maiô incitava “maus pensamentos”. Aos 17 anos, viu nas praias da França jovens “mais despidas do que vestidas, que me arrancaram uma exclamação de portuguesinha pudica: – metem-me nojo!” – ela registrou naquele momento.

Revolução dos Cravos

Tudo começou a mudar em 1949, quando entrou na Faculdade de Letras, onde foi aluna de Luís Cintra e Vitorino Nemésio. No início, “sentia quase a obrigação de defender Salazar”.  No final dos anos 60, já como professora universitária, “a atmosfera ficou sufocante”, ela presenciou policiais da PIDE com cães amestrados invadirem as salas de aula, espancarem e prenderem estudantes acusados de “comunistas”. O professor Cintra recebeu uma bastonada por defender seus alunos. Até o filho Miguel, secundarista, foi preso numa manifestação e teve seus cabelos “tosquiados”.

A minha visão de um país em busca da liberdade” – ela conta – cresceu em Paris, onde cursou o doutorado a partir de 1970, quando ainda ressoavam os ecos de maio de 68. Na Universidade de Vincennes, em vez do distanciamento hierárquico da Sorbonne, “os alunos tratavam os professores por tu”, tornando a aula um debate participativo. Seguiu os cursos de Bernard Pottier e de Nicolas Ruwet, cujo livro de introdução à linguística gerativa ela já tinha lido em Lisboa. Mergulhou com paixão no estudo da fonologia e conheceu a obra de referência de Noam Chomsky e Morris Halle: The Sound Pattern of English. Descobriu a relatividade dos valores ou necessidades que julgava universais, o que repercutiu no seu trabalho acadêmico e na sua vida pessoal.

A grande reviravolta se deu em abril de 1974 com a derrubada do regime salazarista. “Com o coração a saltar de entusiasmo, eu já estava no Largo do Carmo […] A população estava em aberta confraternização com os militares e os cravos vermelhos começaram a surgir no cano das metralhadoras”. Uma semana depois, no dia 1º de maio “juntou-se em Lisboa cerca de um milhão de pessoas que se deslocaram até ao estádio. Também fui para a rua com um cravo na mão. É difícil transmitir a alegria, a felicidade, a força interior que inundava todos aqueles que percorreram o caminho da liberdade nesse dia”.

Distanciada da militância hard, Maria Helena avalia que “o 25 de abril é, portanto, o primeiro dia do resto da minha vida”, a partir do qual teve a possibilidade de refazer muitos dos seus julgamentos nos campos acadêmico, político e existencial. “Quem sabe se a construção da representação formalizada da língua não me abriu caminho para compreender este conceito que passou a fazer parte do meu ser vivencial?”

Gramática das Mulheres

Com alguns colegas da Universidade de Lisboa, Maria Helena criou o Grupo de Estudos de Linguística Teórica (GELT) para assim consolidar um novo conceito de gramática. Suas aulas transitavam pela distribuição geográfica do português: dialetos, socioletos, crioulos de base portuguesa e o mirandês, com foco na sua área predileta – a fonética da língua portuguesa. Foi uma das fundadoras da Associação Portuguesa de Linguística (APL), que realizou encontros nacionais e regionais para discutir a difusão da língua portuguesa no mundo e os princípios norteadores da política de língua em Portugal, nos países da África e em Timor.

Com nove autoras – por isso ficou conhecida como “a gramática das mulheres” –  coordenou a Gramática da Língua Portuguesa (1983), que em sua sexta edição (2003) contava com 1127 páginas. Discutiu a “construção de gramáticas descritivas” em congressos internacionais, simpósios e mesas-redondas pelo mundo afora. Questionou a noção de “gramática normativa” e relativizou a visão de uma língua monolítica, assumindo a diversidade das sociedades que têm o português como uma das suas línguas.

“No Brasil e nas colônias da África, a língua portuguesa teve o papel de língua de subjugação cultural” – ela critica o esquecimento deliberado de centenas de línguas ali faladas. No entanto, depois disso, “o português nascia como língua de unidade nacional, cobrindo nações plurilíngues”. Lembra de uma conferência de Yonne Leite “As várias faces da pesquisa com línguas indígenas brasileiras”, que a deixou entusiasmada e lhe chamou a atenção para as línguas ameríndias, para o bilinguismo e para a interculturalidade.

Maria Helena participou ainda do projeto EUROTRA da Comunidade Europeia para criar um sistema mais eficaz de tradução automática, que não traduzisse une orange pressée por uma laranja apressada, como ocorreu. “Cedo se compreendeu que para traduzir não bastava substituir as palavras do léxico de uma língua pelas correspondentes palavras do léxico de outra língua. Tornava-se imprescindível preparar o computador para executar análises sintáticas e semânticas – ela escreve.

Daí surgiu o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), criado na Faculdade de Letras e presidido por ela, com o objetivo de estabelecer um diálogo entre os linguistas e os informáticos. Uma de suas preocupações era com a diversidade linguística na escola portuguesa, o ensino de português como língua não materna e a formação de professores.

Na sua vasta produção, transitou da Filologia Românica, como parte de sua formação, ao modelo teórico gerativo na descrição fonológica do português. Passou pela lexicografia, pela linguística histórico-comparativa, pela sociolinguística. As funções sociais da língua fazem parte das suas últimas intervenções acadêmicas nos debates sobre o papel das línguas na organização social e o uso político por parte do Estado na Educação: “Estudar a língua materna é constatar que o falar é uma parte importante da nossa construção como pessoas, que a palavra nos permite saber o que fizemos de nós próprios no complexo processo da nossa identificação”.

Desta forma, ela pôde dizer que “nada do que é linguístico me é alheio”.

Da vela ao vento

Será que chegou ao fim a história da sua vida? No dia de finados, 2 de novembro de 1998, depois de um congresso internacional no México, ela testemunhou “uma celebração de origem indígena, que honra os defuntos” e comentou “como a vida e a morte conviviam tranquilamente, com um certo humor, até encontrei uma pequena orquestra de esqueletos todos contentes a fazer música. Nunca esquecerei essa lição que senti imbuída de uma antiga sabedoria sobre a vida e a morte, tão próxima e tão tranquilas”.

Sabedoria que ela soube cultivar, com dor e dignidade, na morte de três filhos – Miguel, Pedro e Ana Isabel – essa última em seu colo, assim como na alegria da vida das três filhas – Terezinha, Paula e Inês – agora enlutadas, dos netos e bisnetos.

Na segunda feira (30), Maria Helena Mira Mateus (1931-2020) ex-reitora da Universidade de Lisboa, morreu vitimada por um AVC, em plena quarentena. “Su cadáver estaba lleno de mundo”, como no poema de César Vallejo. O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, que foi seu aluno no Liceu Pedro Nunes, quando era “gordinho, atento, inteligente e de bonitos olhos azuis” declarou que “A lusofonia ficou mais pobre”, lembrando sua “batalha incansável em defesa da língua portuguesa”.

A dama da linguística portuguesa nos deixa uma vasta obra e uma lição de vida: a lembrança perene de sua alegria, de sua garra de viver, de sua forma de cultivar amizades, de romper as normas com sensatez, mas com firmeza. Convivemos meio século com ela, com idas e vindas por nossas moradas no Peru, no Brasil, em Paris e em Lisboa. Guardamos com carinho suas histórias, seu riso, o livro com dedicatória e uma pequena caixa de música com o hino da Internacional. Cada vez que rodamos a manivela, cantamos com ela. O neto Gabriel herdou sua sabedoria e sua veia lírica: “Algumas vidas são grandes demais para caberem num desaparecimento nas profundas águas de março”.

P.S. Maria Helena, tão “qu’rida”, no livro cheio de fotos organizadas por sua filha Inês, artista gráfica, dedica muitas palavras às amizades feitas em Paris com Bernard Schebeck, Consuelo Alfaro e Magdalena Vadell. Em Portugal e em outras partes do mundo cita inúmeros colegas e discípulos. No Brasil, uma legião de amigos e admiradores, alguns que já se foram, entre eles: Silvio Elia, Celso Cunha, Evanildo Bechara, Yonne Leite, Leonor Scliar, Rosário Albán, Leonor Lourenço, Myrian Barbosa, Maria Luíza Braga, Ruth Monserrat, Rosa Virginia, Carlos Alberto Faraco, Paulo Bearzotti, Anthony Naro, Ataliba Castilho, Miriam Lemle, Dinah Callou, Helena Gryner, Mary Kato, Leila Bárbara, Elza Miné, Hildo Honório, Janete Bessa, Luiz Paulo da Moita Lopes, Demerval da Hora, Maria Carlota Rosa, Letícia Rebollo, Vera Lúcia Paredes, Xoan Lagares, Beatriz Christino.