Brilhos na floresta: apaga a luz para ver

Ao poeta,  faz bem  desexplicar  – tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes”.

Manoel de Barros. O Guardador de Águas. 1989

Te faço um convite, leitor (a). Mas antes, por favor, apaga a luz para que possas ver o que quero te desexplicar, embora não seja eu um poeta. Abre os teus olhos na escuridão do país e observa se tenho ou não razão quando digo que, caso estivessem preocupados com o Brasil profundo, os telejornais teriam subtraído um minutinho das horas dedicadas à morte do apresentador de televisão Gugu Liberato, em Orlando – é Flórida! – para anunciar a existência de um cogumelo que brilha na floresta amazônica, como um pirilampo. Faz-de-conta que às 20h30 William Bonner anuncia:

– O Jornal Nacional está começando agora. No domingo (1), às 16h00, na maloca da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em São Gabriel da Cachoeira (AM), haverá noite de autógrafos do livro “Brilhos na Floresta”. Seus autores desejam que esta história seja lida e ouvida por crianças e jovens indígenas que vivem em aldeias, mas também por aquelas que moram em cidades como Manaus, Rio, São Paulo, Tóquio e Boston. Por isso, foi escrito em quatro línguas: nheengatu, português, japonês e inglês, com versões ainda nas línguas Tukano e Baniwa neste Ano Internacional das Línguas Indígenas que está terminando. Não é por coincidência que o seu lançamento começa pela cidade mais indígena do Brasil.

Renata Vasconcellos complementa:

– Os quatro autores e a ilustradora estarão também no próximo sábado (7), às 18 horas, na Banca do Largo, em Manaus, para o lançamento do livro, que aproxima a ciência e a floresta do público infanto-juvenil ao se inspirar no registro do diário de campo de Noemia Kazue Ishikawa, bióloga do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Veja a seguir: seres desconhecidos pelos brasileiros embelezam a floresta amazônica e iluminam o caminho de casa para quem se perdeu no mato.

Fungo luminoso

Entram os comerciais, a gente aproveita para ir beber água ou fazer xixi, ninguém aguenta propaganda que tenta convencer os incautos a pedir dinheiro emprestado de uma empresa de crédito pessoal ou a comprar o que, em geral, não é necessário, nesse interminável black year. Voltamos à nossa poltrona a tempo de ver o bloco seguinte.

Faz-de-conta que o JN mostra nesse momento a repórter Natália Freire que entrevista no “Amazonicamente” a linguista Ana Carla Bruno (INPA) e a artista plástica Hadna Abreu sobre a história do livro que é baseado em fatos reais. Foi assim. Numa tarde nublada de março, em visita a uma família Baniwa, a bióloga Noêmia colhe cogumelos nas roças para estudá-los, enquanto seu colega da Universidade de Kyoto, Takehide Ikeda, em companhia de Aldevan, fotografa sapos coloridos na roça de abacaxis. Lá, na semana anterior foram registrados rastros de onça, o que preocupa a todos.

Eles comem um jaraqui assado no moquém por seu Aloísio. Depois do jantar, deitado na rede onde está “jiboiando”, ainda com o sabor da pimenta Baniwa na papila gustativa, Aldevan fala dos cogumelos que brilham. Noêmia explica que se trata de fungos bioluminescentes, que ela conhece através dos livros, mas que nunca viu pessoalmente.

– Quer ver? Nesta noite sem lua dá pra enxergar o brilho desses fungos aqui perto – convida Aldevan.

Noêmia hesita, manifesta seu medo de onça. Aldevan a tranquiliza:

– A onça também tem medo das pessoas. Basta respeitar o espaço dela, que ela respeita o seu.

Ikeda topa na hora e anima Noêmia. Seu Aloisio aconselha a usar botas e levar lanternas para evitar cobras. Os improvisados expedicionários entram no mato.

– Andem perto de mim. Iluminem o caminho com a lanterna e olhem com cuidado onde pisam – recomenda Aldevan.

Lanterna apagada

O JN penetra de noite na floresta amazônica e acompanha os passos da bióloga Noêmia, do Baniwa Aldevan – agente de combate às endemias da Fundação de Vigilância em Saúde, do produtor rural Aloísio Braz e do biólogo Takehide Ikeda. Todos eles portam lanternas potentes. A câmera mostra a fila indiana.

Quem vai na frente é Aldevan, que carrega milênios de experiência de quem nasceu na Cabeça do Cachorro (AM) e aprendeu muito ouvindo as histórias do pai Baniwa e da mãe Tukano. Atrás dele, Aloísio, que cultiva roças no sitio Santa Isabel. Noêmia, neta de Nobuo – pioneiro no cultivo de fungo no Brasil – é a terceira da fila, seguida por Ikeda que pesquisa – olhem que maravilha! – as cores de seres vivos.

Depois de uma boa caminhada, o Baniwa pede que todos apaguem as suas lanternas. Durante dez minutos mergulhados em intensa escuridão, os olhos se acostumaram com o breu. Primeiramente, a mancha esverdeada de uma folha brilha bem no pé de Noêmia. Ela levanta a cabeça. Os cogumelos, então, deslumbrantes, resplandecem em toda sua majestade. Parece até uma cintilante árvore de natal. Eles nunca mais esquecerão aquele espetáculo de pirilampo pisca-piscando, que pode ser observado na floresta amazônica, mas também na mata atlântica, no cerrado e em biomas de outros países.

– Já andei muito por florestas. Por que será que nunca vi isso antes – pergunta Ikeda, intrigado.

– Porque você nunca apagou a lanterna. Os cientistas deviam saber que nem tudo que a gente procura, pode ser encontrado iluminando. Às vezes, para ver, é preciso desiluminar – responde Aldevan.

A experiência é inesquecível. Retornam, agora com as lanternas acesas e o brilho dos fungos gravado na memória. Noêmia manifesta outra vez o medo da onça e de se perder no caminho. Aldevan conta que seu pai um dia foi colher patauá na floresta na Cabeça do Cachorro. Anoiteceu. Na escuridão, sem fogo e sem rede para passar a noite, não tinha como voltar pra casa. Como os cogumelos que brilham crescem nas trilhas, ele conseguiu achar o caminho de volta apenas guiado por sua luz.

Cenipuca luminosa

O posfácio do livro foi escrito pelo químico Cassius V. Stevani, pesquisador da USP, que encontrou, em 2005, a primeira espécie de cogumelo que emite luz. Ele estudou exemplares de um fungo que economizava energia durante o dia para brilhar intensamente de noite. Coordenou o projeto “Bioluminescência em fungos: levantamento de espécies, estudo mecanístico e ensaios toxicológicos”, que fez uma enorme “balbúrdia”. No posfácio do livro, ele descreveu assim sua intensa emoção num cenário de ficção científica:

2005. Acaiú ressé, a uacemo iepé urupé o ricó cenipuca (biolumiscente). Ti acuao a contari maie ita ia saãn mairamé ia maãn cenipuca urupé caá pe pituna arame.

Na realidade, Cassius escreveu em português, mas para não dar spoiler transcrevi aqui a tradução em Nheengatu, a língua falada majoritariamente na Amazônia até meados do séc. XIX. Quem quiser conhecer detalhes, tem que apagar a luz da tv, que nos enceguece, para ver o brilho do cogumelo no sábado (7), às 18 horas, no lançamento na Banca do Largo. Os autores estão esperando vocês.

P.S.1 Ishikawa, Noemia Kazue e outros: Brilhos na Floresta. Coedição Editora INPA / Editora Valer. Manaus. 2019. 64 pgs.

P.S. 2 – Pensei aqui na minha vasta prole de sobrinhos-netos, que merecem entrar nesse mundo mágico para aprender a amar e a defender a biodiversidade, pouco conhecida. Eles adorarão “Brilhos na Floresta”. Listo aqui os nomes de alguns: Bia e Mariana, Greta, Netinho e Luísa I, Alice, Rodrigo e Artur, Leticia, Vinicius, Marcelo e Elisa, Ana Clara e Marina, Sofia II, Malu e Clara, Ananda e Duda, Gabriella, Alice e Lucas. Seus pais, que moram em Manaus, estão intimados a os levarem para o lançamento. Pedi ao livreiro Joaquim Melo para controlar com o livro de presença. Vou puxar a orelha de quem não for.

Os que vivem em outras cidades, merecem ganhar o livro como presente de natal: Em São Paulo: Palmito e Sofia; no Rio, Manu;  em Natal: Ana e Maia; Em Niterói: Vitória, Rodriguinho Power, Maya, Bernardo e Patrick, Isis e Luísa II, Bárbara e Gui. Tia Elisa Souto, não seja sovina, traga exemplares para seus sobrinhos netos!

P.S.3 Tarde de autógrafos: Ih, menina, fiquei tão empolgado com os fungos, que esqueci de avisar: neste sábado (30), de 16h às 19 hrs, o livro “CASCUDINHO – O PEIXE CONTADOR DE HISTÓRIAS” da Editora do Brasil, belamente ilustrado por Luciana Grether, com texto deste locutor que vos fala, foi lançado na Livraria  da Travessa, em Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572).

 

P.S.4 Culpar ONGs por crimes ambientais cometidos sabidamente por fazendeiros, faz parte da barbárie que assola o país. Agride nossa inteligência e suja de lama a verdade. A prisão dos quatro brigadistas de Alter do Chão foi algo tão vergonhoso e fake, que quem prendeu, foi obrigado a soltar: o juiz “insuspeito” de uma família de madereiros. A mentira era tão descarada que não colou.