Amazonas, isolado, desunido em busca de 2073

A carta dos empresários solicitando ao Conselho da Amazônia uma política para a região pouco repercutiu aqui no Amazonas. Mesmo assim, mais junto ao empresariado do que nos meios políticos. Os signatários do documento até já foram recebidos pelo general Hamilton Mourão, titular do Conselho. Em Manaus, algumas vozes, sobre o assunto, merecem atenção. De um lado, o empresário Aderson Frota, presidente da FComércio, em mensagem a mim enviada por e-mail observa, de início, que, a discussão da Amazônia esbarra na falta de pleno conhecimento da região. A grande maioria dos brasileiros (nordeste, centro oeste, sul e sudeste), observa, nunca colocou os pés em território amazônico, embora a região corresponda a mais de 60% do Brasil; somente o Amazonas representa quase 20% do Brasil”.

 

Quanto ao estado do Amazonas, salienta Frota, “é dotado da maior bacia hidrográfica do mundo; o Rio Amazonas corta de oeste a leste a área do Amazonas, para depois, atravessando o estado do Pará, desaguar no Oceano Atlântico”. Mesmo assim “confunde-se Amazonas com Amazônia”. Além do extraordinário manancial de água doce, a região “tem uma selva exuberante, a maior reserva de madeira de lei do Planeta e uma diversidade de fauna e flora pouco conhecida, estudada e catalogada. Patrimônio esse de ínfima expressão para a economia nacional”.

 

Além disso, segundo Aderson Frota, “o Amazonas encerra a maior reserva mineral do Brasil, ainda intocada: ouro, nióbio, cassiterita, bauxita, terras raras, petróleo e gás natural, potássio, calcário e muitos outros minerais estratégicos. Não obstante toda essa expressão de grandeza geopolítica, continua isolado. Sua economia se ressente de portos, rodovias, ferrovias e sua cabotagem tem os maiores preços do mundo. Exemplifica Frota: “um container de 40 pés, saindo de Hong Kong (China) para o Porto de Santos em São Paulo, é mais barato do que o mesmo container saindo de Santos para Manaus. O déficit de conhecimento da região é abissal. O que é ruim para o Brasil, é pior para o amazonense”.

 

O professor de Engenharia da UFAM, Augusto Rocha, em artigo publicado semana passada, chama a atenção para o “afastamento misterioso” existente entre as instituições do Amazonas. Nesse sentido, “vê-se que as universidades poderiam ser muito mais próximas das indústrias e vice-versa. O mesmo acontece entre órgãos do governo”. Quais razões, observa, “INPA e Embrapa estão longe da Suframa e da construção do CBA, que fatores levam os órgãos de trânsito e mobilidade urbana estarem distantes das universidades, dos cursos e alunos de arquitetura, engenharia civil, estatística e matemática? Existe por aqui uma distância onde todos ficam encastelados em suas fronteiras”.

 

Quando estas instituições se conectam com outras para lidar com o dia a dia, “é mais fácil vê-las interagindo com outros Estados ou com o exterior”. Assim, insiste Augusto Rocha, “vemos empresas de consultoria nacionais ou internacionais atuando por aqui, mas dificilmente veremos projetos egressos do Amazonas e para o Amazonas, a partir de uma interação institucional local. O que nos levou a esta condição? Não sei ao certo, mas percebo claramente que isso é um problema real, ainda insolúvel, e que algo está fora de lugar”, questiona Rocha.

A propósito, o presidente do CIEAM, Wilson Périco, “pondera tratar-se de litígios que remetem ao dito popular segundo o qual ‘santo de casa não faz milagres’. Razões? Vaidades e interesses menores em detrimento do coletivo. Não raro, salienta, “a necessidade de se fazer prevalecer ou simplesmente ‘aparecer’ leva a reduzir/enfraquecer as representações das entidades”. Ao que se pode presumir, os problemas do Amazonas – que são muitos – têm origem aqui mesmo. Sem norte claramente definido, como sistematizar nossos projetos e objetivos? Superar tais impasses exige, acima de tudo, disciplina, desprendimento, solidariedade, união, respeito ao próximo. Às pessoas, às instituições e às lideranças governamentais, políticas e empresariais. Para tal há de se levar em conta a sapiência do provérbio, segundo a qual “birds of a feather flock together”. Pássaros da mesma plumagem voam juntos. Sabedoria intrínseca à natureza dos seres vivos, humanos ou não.