A macaca que chorou a morte da cria

A macaca que chorou a morte da cria

O macaco-aranha orelhudo, com barriga de bispo, saltitava agilmente de galho em galho, usando cauda, pernas e braços alongados em álacres piruetas. Era um coatá de cara preta. Parecia feliz e exibia sua alegria sapeca sem pressentir o perigo iminente. Saracoteava, moleque e brincalhão, no alto das árvores daquela floresta, cujo esplendor é cantado pelas crianças nas escolas municipais de Candeias do Jamari (RO). Foi quando Fabinho apontou a espingarda calibre 20 e disparou um tiro certeiro. O animal ferido de morte ficou pendurado pelo rabo enganchado em um galho, balançando ao vento.

O caçador, menino de apenas 15 anos, aprendera a atirar meses antes, quando um gavião rondava o galinheiro e seu pai adotivo, ocupado em torrar farinha, lhe gritou:

– Pega a espingarda e espanta o gavião.

Escondido atrás de um pé de café, Fabinho puxou o gatilho pela primeira vez em sua vida. Tombou com o soco da arma no seu ombro, mas tirou o fino da ave, que fugiu com o estampido ensurdecedor. A partir daí, foi aprimorando sua pontaria, caçando pato selvagem no rio Candeias, afluente do Jamari, na bacia do Madeira. Nunca, porém, matara um macaco, só agora para obedecer o pai, cujo amigo hóspede apreciava cabeça, costelas, pernas e braços do bicho, cozidos com sal, alho, cebola e coentro, além do fígado e coração assados na brasa. Do macaco, nada se perde, tudo se transforma.

Ferido de morte

O jovem caçador, porém, não é chegado em carne de macaco e mantém distanciamento crítico do canibalismo, mas a autoridade paterna falou mais alto. Ele deu outro tiro, o animal caiu do galho fazendo enorme barulho, emitindo som parecido ao relincho de cavalo. De suas costas se desprendeu uma massa informe. Ao se aproximar, Fabinho verificou, então, que não era um macaco macho, mas uma fêmea, uma mãe com seu filhote, igualmente ferido, que devia ter pouco mais de quatro meses, idade em que ela passa a carregá-lo nas costas, em vez de agarrado na barriga.

A macaca, sangrando, rastejou até o filhote, se escorou num galho e ficou ali observando-o por breve momento. Viu que ele também estava ferido. Olhou ao redor, com dificuldade coletou umas folhas verdes, colocou-as na boca, mastigou bem mastigado, produzindo uma papinha gosmenta que aplicou sobre o ferimento da cria, cuja costelinha havia sido perfurada pelo chumbo. Pegou o filho no colo e começou a niná-lo com ternura. Se falasse Nheengatu, cantaria o acalanto das mães indígenas do rio Negro, que pedem o sono emprestado ao quatipuru para adormecer seu filhos:

Acutipuru ipurú nerupecê / cimitanga-miri uquerê uaruma.

De qualquer forma, ele dormiu o sono eterno:

– “O filhote morreu nos braços da mãe que o contemplava com devoção. Ela pegou o filho morto – conta Fabinho – acariciou-o, fez-lhe alguns afagos e um cafuné, levantou-o em minha direção e começou a chorar lágrimas silenciosas de amargura. Era como se ela me recriminasse dizendo: – Olha aí o que você fez. Você não tem vergonha”?

Tinha sim:

– “Eu e meu cunhado Jorge Paula, que vimos toda a cena, choramos junto com a macaca, que logo em seguida também morreu. Se meu cunhado não tivesse presenciado, eu hoje duvidaria do que vi”.

Talvez por ser filho adotivo, Fabinho sentiu na própria pele a aflição daquela mãe:

– Carreguei o sentimento de culpa, me sentindo um assassino, passei várias noites sem dormir, tentando me desviar do olhar e do choro da bichinha.  Até que minha mãe adotiva conversou muito comigo e me fez enxergar que tudo aquilo devia servir como um ensinamento da natureza, como uma aula para aprender a respeitar a floresta e os animais.

Lição aprendida

O perfil de Fabinho foi traçado de forma lapidar e concisa por José Roberto Torero, escrivão da frota da expedição literária Amazônia das Palavras e porta-voz de Santo Ernulfo no rio Madeira:

Quando tinha 15 anos, Fábio Costa foi mandado para a Escola Agrícola em Humaitá. A escola era uma mistura de internato com Febem. Ele ficou lá por quatro anos. A intenção era domar Fabinho. Felizmente não deu certo.

Felizmente. Depois que teve de trocar o sítio de seus pais adotivos pelo internato, Fabinho comeu a mandioca que o capiroto ralou. Apanhou muito: “Foram dias de pesadelos, que me serviram como experiência e no final das contas me ensinaram a driblar as dificuldades da vida”.

Hoje ele é repórter cinematográfico e fez parte da equipe de jornalistas da SICTV que, comandada por Eduardo Kopanakis, acompanhou o cotidiano da expedição Amazônia das Palavras. Suas imagens, belas e informativas, obtiveram o prêmio de Telejornalismo do Grupo Rondovisão, Rádio e Televisão concedido na última sexta-feira.

Durante a oficina de contação de histórias indígenas, Fabinho entrou na sala para filmar e me ouviu narrar a fábula registrada por Couto de Magalhães na qual Anhangá pune um caçador que matou uma veada recém-parida, ainda amamentando, transformando-a no cadáver da mãe do criminoso. Fabinho descreviveu, então, aos alunos das escolas de cada cidade a experiência pessoal e traumática da caçada que fez e qual foi o seu Anhangá. As crianças também aprenderam a lição, ao contrário de muitos adultos que defendem, em nome do lucro, a devastação da floresta.

– Jurei que nunca mais mataria um macaco – disse Fabinho. Ele podia repetir Sebastião Salgado, que para fotografar uma tartaruga-gigante em uma das ilhas Galápagos se transfigurou em tartaruga: “Aproximei-me tanto da natureza que me tornei natureza. A humanidade não é o centro, mas uma parte do mundo. Nós compartilhamos o planeta com os demais seres vivos”.

Quando seres humanos tratam animais como feras e árvores como lenha, nesses tempos de barbárie bolsonariana, é extremamente edificante ver animais nos dando lições de humanidade perdida.

A marselhesa

Eu ia até narrar essa história da macaca no lançamento da gramática guarani organizado pelos Saberes Indígenas na Escola nesta quarta-feira (5), na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Não contei ao público presente, entre os quais alunos da Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, para não atropelar o tempo dos meus colegas na mesa-redonda: a linguista Ruth Monserrat, a escritora indígena Márcia Kambeba e a antropóloga Maria Dorothea Post Darella.

E se houvesse tempo, eu ainda teria cantado o hino oficial do município de Candeias do Jamari, no ritmo vibrante da Marselhesa, mas corrigindo o brado retumbante da letra bélica e chauvinista e do civismo de araque que se fazem sempre presentes nesses hinos patrioteiros:

Allons enfants du Jamarri-iiiiiiiii! Le jour du singe est arrivé.

Déposez vos armes, citoyens! Ne formez pas vos bataillons.