A humanidade dos índios: nós quem, cara pálida?

Os brasileiros aceitaram passivamente, sem questionamento, como se fosse

sua, aquela versão que o colonizador português deixou sobre os índios.   

 (Marcos Jiménez de la Espada, 1890)

A genial descoberta feita pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, de que “o índio está evoluindo e se tornando um ser humano igual a nós”, ainda não foi patenteada na Associação Brasileira de Antropologia (ABA). De qualquer forma, podemos extraoficialmente confrontá-la com as conclusões da Comissão Científica do Pacífico que andou investigando o assunto no séc. XIX em nome da monarquia espanhola. Assim, saberemos se essa tendência de “humanização” faz parte dessa memória histórica, consultando os relatórios da expedição que cruzou a cordilheira dos Andes até o rio Napo e desceu o rio Amazonas, em 1865, para analisar a biodiversidade e as culturas indígenas.

Vários expedicionários deixaram depoimentos, entre eles o zoólogo e historiador espanhol Marcos Jiménez que, por ser Espada, se torna insuspeito às hostes terraplanistas, embora o médico e antropólogo Manuel de Almagro, por ser cubano, possa não ser confiável.  Eles passaram em setembro de 1865 por Tabatinga (Am), quando constataram a existência de povos tão distintos como os Ticuna, os Omagua, os Kambeba. Lá encontraram a expedição científica norte-americana comandada por Louis Agassiz da Universidade de Harvard, com quem trocaram informações.

Diante da enorme diversidade cultural ao longo do rio Amazonas – diferentes línguas, religiões, saberes, organização social, arquitetura, etc. – os espanhóis sacaram logo de saída ser falsa qualquer conclusão que afirma “o índio é isso” ou “o índio é aquilo”, pois o índio genérico não existe, conforme constataram in loco. Existe o Yanomami, o Krenak, o Xavante, o Guarani. É operação idêntica à de colocar no mesmo saco, em contexto similar, espanhóis, franceses, alemães, ingleses como se fossem todos iguais por serem “europeus”, ignorando as particularidades de cada nação. Portanto, se faz necessário saber qual povo “está evoluindo e se tornando um ser humano igual a nós”.

O “selvagem” desumanizado

Jimenez de la Espada iniciou a expedição achando que iria encontrar povos “selvagens, atrasados, luxuriosos e bestiais”, como está registrado no Tratado Descritivo do Brasil (1587) escrito pelo cronista luso do séc. XVI, Gabriel Soares de Souza. No entanto, durante a viagem foi desmantelando os preconceitos. Descolonizou sua cabeça ao se defrontar na época com conhecimentos avançados equivalentes aos compartilhados hoje por Raoni e Davi Kopenawa, que nesse momento estão dando conferências na Universidade de Oxford, no colóquio internacional sobre políticas ambientais, realizado de 31 de janeiro a 2 de fevereiro no Reino Unido.

A expedição espanhola constatou que cada sociedade indígena produz saberes, ciência, arte refinada, literatura, poesia, música, filosofia, religião, e transita por diferentes campos do conhecimento: botânica, zoologia, medicina, astronomia, agricultura, classificação e uso do solo, reciclagem de nutrientes, métodos de reflorestamento, melhoramento genético de plantas cultivadas, pesticidas e fertilizantes naturais, manejo da pesca. A expedição enviou ao Museu de Ciências Naturais de Madri mais de 80 mil exemplares da natureza e das culturas, que foram classificados pelos ameríndios, o que deixaria de boca aberta Lineu, o pai da moderna taxonomia.

Portanto, no séc. XIX as nações ameríndias estavam longe de “ser iguais” a Bolsonaro, que não domina tais saberes. E no séc. XVI? Jiménez de la Espada, professor da Universidade Central de Madri, que morreu em 1898, reorientou seu estudos e dedicou os últimos trinta anos de sua vida a estudar as fontes históricas sobre as antigas culturas americanas. Por razões até nacionalistas, decidiu mergulhar nos arquivos para verificar o que diziam os primeiros espanhóis que viajaram pela Amazônia, desde Vicente Pinzón, que “descobriu” a foz do grande rio, em janeiro de 1500, antes mesmo de Cabral aportar por aqui, passando pelas viagens de Orellana (séc. XVI) e Úrsua-Aguirre (séc. XVII).

O Brasil moderno

Lendo as informações etnográficas das crônicas de viagem, Jiménez de la Espada constatou que há 500 anos, os povos da Amazônia eram diferentes entre si e dos espanhóis, mas já estavam repletos de humanidade. Embora preconceituoso, Frei Carvajal, cronista de Orellana, cego de um olho, viu no séc. XVI o que Bolsonaro não consegue ver com dois olhos no séc. XXI. Registrou organizações sociais sofisticadas, o intenso comércio intertribal, a agricultura de várzea que revelava o conhecimento do ciclo do rio, técnicas de armazenamento que protegiam os alimentos durante a enchente e a cerâmica dos Tapajós, cuja beleza ele comparou à da China e da Grécia.

O capitão Bolsonaro nunca visitou uma aldeia indígena e certamente nunca leu um livro sobre o tema, o que é compreensível, porque afinal “livros têm muita coisa escrita”. Então, de onde ele tirou essa ideia de que “o índio está evoluindo e se tornando um ser humano igual a nós”? Talvez da única indígena que ele conhece, Ysani Kalapalo, que o acompanhou na comitiva da Assembleia Geral da ONU. Ela, realmente, parece estar se tornando um ser humano igual a ele, mas esse fato não lhe permite generalizar.

Já que livros “têm muita coisa escrita” e “tem que suavizar aquilo”, transcrevemos uma única frase de Darrell Posey, etnobiólogo que viveu com os Kaiapó. Darrell, que nasceu na pátria do Trump a quem Bolsonaro tanto venera e obedece, escreveu:

“Se o conhecimento do índio for levado a sério pela ciência moderna e incorporado aos programas de pesquisa e desenvolvimento, os índios serão valorizados pelo que são: povos engenhosos, inteligentes e práticos, que sobreviveram com sucesso por milhares de anos na Amazônia. Essa posição cria uma “ponte ideológica” entre culturas, que poderia permitir a participação dos povos indígenas, com o respeito e a estima que merecem, na construção de um Brasil moderno”.

O bobo mau

O capitão quer, no entanto, dinamitar essas pontes construídas em parceria com universidades nacionais e estrangeiras. As organizações indígenas já se manifestaram, entre elas, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) que através de Sônia Guajajara protocolou representação na Procuradoria-Geral da República contra Bolsonaro pelo crime de racismo. Seu assessor jurídico Luiz Eloy Terena condenou o “resquício colonial que domina a cabeça do presidente”. Lideranças e intelectuais indígenas também protestaram.

O escritor Daniel Munduruku no artigo “Quem tem medo do bobo mau?”, afirma que “não se pode esperar que nasçam pérolas de latrinas mentais”. Ailton Krenak argumenta que “quando falamos que o nosso rio é sagrado, as pessoas dizem que é folclore; quando dizemos que a montanha está mostrando que vai chover […] eles dizem: não, uma montanha não fala. Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para serem resíduos da atividade industrial e extrativista”.

A artista plástica e ativista ambiental Narubia Werreria, do povo Iny (Karajá) da Ilha do Bananal, considera o – digamos assim – pensamento de Bolsonaro “débil historicamente, humanamente e cientificamente retrógrado” como dizer hoje que “a terra é plana”. Ela se dirigiu diretamente ao presidente: “Jair, me compare a um animal, mas não me compare a você e à sua suposta humanidade. Os animais conseguem ter mais empatia e racionalidade que vocês que, para nós, são vermes que alimentam sua ganância destruindo a vida na terra, todas as espécies e a sua própria, chamando isso de civilização”.

Bolsonaro não passaria num exame do ENEM, nem mesmo com correção revisada por Weintraub. O que tem dentro da cabeça dele e de muitos brasileiros que o seguem? A ideologia preconceituosa deixada pelo colonizador. Nesse caso, eles se desnudam, mostram despreparo e ignorância.  Diz-me o que pensas sobre os índios e eu dir-te-ei quem és.