Sebastião Reis

Domingo passado almocei com Sebastião Reis no restaurante do condomínio onde ele morava. Estavam lá três dos seus filhos e vizinhos afetivamente ligados a esse grande caráter que se foi tão prematuramente.

Tarde agradável. Reis estava loquaz, um tanto inquieto, muito inspirado nas idéias que expunha. Alguns jovens foram chegando e ele, que falava para todos, certamente falava mais para eles.

Tocou no caso da segurança pública em Manaus. Abordou a corrupção policial. Afirmou que as pessoas se estariam armando para viver o dia-a-dia da cidade.
Declarou que o tráfico de drogas está por trás da maioria dos crimes de morte cometidos no Amazonas e no Brasil. Corajosamente comentou que passou anos consumindo cocaína. Que nas fases agudas atacava-o a síndrome de pânico, quando se recolhia para o sono que não conseguia dormir de verdade. Em meio ao turbilhão, trabalhava freneticamente, amparado no imenso talento que Deus lhe dera.

Texto bonito, literário, objetivo quando tinha de ser assim. No Rio, estava a caminho de se firmar como o grande repórter esportivo de sua geração. Todos o estimavam e lhe reconheciam o valor. Aqui, muitos o amavam e alguns, eu entre eles, sofriam pela alma atormentada que integrava sua personalidade.

Em 25 anos de convivência, nunca soube de ato desleal que tenha praticado. Saltava aos olhos sua generosidade desmedida. Certa vez, recebeu a indenização de um jornal e, em minutos, distribuiu o dinheiro entre colegas que estavam com contas atrasadas.

Alma pura. Poucos momentos de felicidade plena. Tortura interior. Angústia. Dores sem fim guardava no coração.

Comunicou-nos que há dois anos estava limpo do uso da cocaína. Denunciou que o vício é a maior desgraça que pode ocorrer a uma pessoa.

Comovia-se. Não me convenci de que estivesse bem. Mas saí contente de tê-lo visto e ouvido, sem desconfiar de que a manhã de terça-feira me noticiaria sua morte.
Os amigos tomaram um choque. Vim para Manaus e fui para o velório. No dia seguinte, o enterro tocante de um homem bom e admirado.

Veio a minha cabeça o privilégio de ter usufruído do seu último momento de lazer, comendo um peixe especial e sentindo o conforto de olhar para os lados e ver pessoas confiáveis, dignas de conviverem com Sebastião Reis. Passei a tarde com um grupo de amigos que se dispõem a proteger os filhos que residem em Manaus. Fabinho, o “menino silencioso”, é compromisso meu. Inteligente como o pai, quer ser cineasta. Realizará o sonho.

A saúde de Reis estava comprometida. Pulmões lesionados. Aos 50, tinha a pureza das crianças e o corpo sofrido e marcado. Seu caráter reto não tinha idade.

Certa vez, telefonou-me por volta de onze da noite. Trabalhava no Estadão e tinha o furo da escandalosa ruptura empresarial entre Pelé e Hélio Viana. Perguntou-me: “É justo publicar algo que possa tisnar a reputação desse ídolo?” Respondi-lhe: “Você é jornalista e tem de publicar. Outro talvez não tenha a sua sensibilidade para, sem fugir à verdade, atenuar as coisas para o lado do Pelé.”

Publicou. Consta que Pelé lhe seria grato, pela forma decente com que foi tratado.
Essa pessoa se foi. Deixou como mensagem final a condenação às drogas e a preocupação com a crise da segurança. Seu gesto outonal foi pensar nos jovens ameaçados como ele já fora.

A amigos próximos, vinha falando em morte há algum tempo. Atormentava-o deixar crianças e adolescentes na incerteza. O filho mais velho vive estavelmente com a mãe, estudando e fazendo planos. Os demais estão aqui e a falta do pai se fará inclusive nos detalhes práticos da vida.

Pensei muito antes de escrever. O tema teria de ser o talentoso jornalista, o amigo que nos deixou. O tom é que me inquieta. Não falar nas drogas? Ora, se ele próprio enfrentou o assunto no almoço, como não entender que sua opção seria alertar, nunca esconder?

Desvendar suas qualidades pessoais e profissionais, passando por cima do drama que lhe ceifou a vida? Ou oferecê-lo como exemplo para a juventude, em prova contundente de que as drogas matam mesmo?

Pior! Torturam e mutilam suas vítimas. Apoderam-se das vontades, dos espíritos, da alegria, da paz. Roubam tudo. Degradam. Humilham. Alimentam um círculo vicioso que inclui roubo, assassinato, contrabando de armas, corrupção policial, territórios ocupados por traficantes e justiceiros que escravizam pessoas de bem.
O Estado brasileiro, inerte, quase cúmplice, olha de fora, como se não tivesse nada com isso.


Arthur Virgílio Neto é líder do PSDB no Senado.

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