Mulher

Dia Internacional da Mulher. Merecidas celebrações se espalham pelo mundo e pelas metrópoles, cidades pequenas, vilarejos do Brasil.

O Congresso realizou bela sessão solene, que se estendeu por horas. O Senador Jefferson Praia falou pelos seus colegas amazonenses, expressando-se com sensibilidade e lucidez.

Na ocasião, o Prêmio Bertha Lutz foi entregue a cinco notáveis patrícias nossas: Lilly Marinho, Elisa Lucinda, Cléa Carpi, Sônia Amaral, Neide Castanha e, in memoriam, Ruth Cardoso, a culta antropóloga que idealizou e implantou os programas Comunidade Solidária e Alfabetização Solidária. Ressalto que a lembrança do nome de Ruth veio da Senadora petista Serys Slhessarenko, em gesto nobre e generoso.

Mas a melhor e maior homenagem de todas é lutarmos, o ano inteiro, contra a distribuição iníqua de renda que esmaga os sonhos das meninas e torna amargo o cotidiano de milhões e milhões de mães brasileiras. É sabermos construir uma nação competente, desenvolvida, competitiva e solidária. È reconhecermos a cidadania de todos, através do emprego, de uma rede pública de saúde que não humilhe a população e nem a deixe desvalida. É modificarmos a realidade educacional do Amazonas, que ainda convive com escolas cobertas por lona azul. É garantirmos a segurança das pessoas decentes, hoje infernalmente molestadas pelos assaltos, seqüestros relâmpagos, crimes de morte, guerras de quadrilha, corrupção policial.

Dedico o meu pensamento às pequenas prostitutas, fugidias feito animaizinhos assustados, que se esgueiram pelas noites de Manaus. Às mulheres espancadas, às vezes até por parentes e companheiros. Às crianças vítimas dessa abominável perversão que é a pedofilia. Às que foram ou são estupradas. Às escravas do tráfico de drogas, almas e pessoas.

Dedico meu coração às que não contam com creches para deixar seus filhos com dignidade e sair para o trabalho ou em busca de ocupação. Às que vegetam em habitações insalubres e inseguras, na capital ou no interior. Às que não podem estudar e, portanto, são testemunhas impotentes da morte de suas próprias esperanças.

Lembro-me de minha mãe, Isabel Victória, que perdeu seus pais muito jovem e foi morar com suas irmãs Anita e Finoca. Com elas a inesquecível Alzira, a Dadia, afilhada, filha e irmã de minha mãe, que se fez professora e ajudou a me criar e aos meus irmãos.

Três moças e uma criança sozinhas numa casa da Epaminondas, estudando e trabalhando, fazendo concursos públicos e vencendo as dificuldades da vida. A Manaus conservadora daquela época devia surpreender-se com fato tão inusitado, com tanto arrojo, ainda mais porque elas souberam manter o mesmo clima de respeitabilidade que haveria de reinar se meus avós Júlio Verne e Sinhá estivessem vivos e responsáveis pelas filhas.

Foi lá na Epaminondas que meu pai conheceu Isabel Victória. Um dia, pediu-a em casamento… para ela mesma, órfã desde cedo que era. Foi lá que Áugias Gadelha fez o mesmo com minha tia Anita. Foi lá que José Jorge de Castro noivou com tia Josephina, a Finoca, a melhor amiga que já tive na vida.

Vejo nas ruas rostos anônimos que refletem aflição, alegria, paz, inquietação. As ruas são o retrato da alma de todos nós. Gosto de observá-las, como se estivesse dirigindo um filme. Para mim, aliás, o maior talento de um cineasta não está em inventar nada e sim em observar e captar os sinais que o cotidiano das pessoas emite a cada momento e em diversas situações.

Minha solidariedade vai para a mulher de pele queimada, enrugada, que a gente nem sabe definir a idade, cheia de varizes nas pernas cansadas de tanto carregar lata d’água e roupa molhada. Vai para a velhinha que educou os filhos com o sacrifício do brilho nos olhos. Para a companheira do presidiário, que se conserva honesta aqui fora. Para a professora, que ganha pouco e carrega nos ombros o peso descomunal de descerrar o futuro de nossas crianças. Para a índia, sábia e culta mesmo sem saber ler. Para a mulher do pescador, que espera dias e semanas, os olhos postos na mata exuberante ou nas águas de dilúvio. Para a comerciária, que tira o sustento de vender beleza e alegria para os outros. Para a trabalhadora do Distrito Industrial, que produz muita riqueza para o Amazonas e para o Brasil. Para a empresária, que paga tantos impostos, emprega pessoas, movimenta a economia. Para a estudante que é o espírito questionador da sociedade. Para a comissária de bordo, que mostra coragem até quando está com medo. Para a funcionária pública, que se dedica ao povo trabalhando para governos que não cuidam dela.

Dedico meu sentimento à mulher que escreve, jornalista, pesquisadora, escritora, poeta – não gosto da palavra poetisa. Aliás, a mulher em si mesma é o poema mais bonito que Deus criou.

 

Arthur Virgílio é líder do PSDB no Senado.

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