Marcito

Escrevo no início da madrugada de sábado. Na tarde de sexta, morreu Márcio Moreira Alves, que vinha amargando as conseqüências de sua longa agonia, severo acidente vascular cerebral. Tal como minha mãe, em sua longa agonia, virou presença constante da UTI do Hospital Samaritano, no Rio.

Márcio foi o jornalista intrépido que se consagrou cobrindo o tiroteio na Assembléia Legislativa de Alagoas. Baleado na perna, não parou de fotografar e anotar. Seria depois, o bravo articulista do Correio da Manhã que, como ele, apoiaria o golpe de 1964 para, logo nos primeiros dias, romper e enfrentá-lo. O Correio terminou fechando e Márcio, deputado federal em 1966, pelo MDB, apoiado por lideranças estudantis e usando discurso de forte contestação à ditadura que nascera.

Márcio era quatrocentão, descendente de Afrânio de Melo Franco, o superministro que dirigiu o Brasil durante o curto mandato do presidente Delfim Moreira, que enlouqueceu e só conseguia encabular algum. Entendimento com o talentoso Afrânio. Delfim era vice de Rodrigues Alves, que, retomando à Presidência, faleceu a quase dois anos do fim do mandato.

Filho de Márcio de Melo Franco Alves, era sobrinho do ilustre deputado federal, senador e ministro Afonso Arinos de Melo Franco, o notável orador, que, da Tribuna da Câmara, deu o golpe de misericórdia no governo de Getúlio, em 1954. Que discurso! Que libelo!

Pois Márcio era o menino rico, bem nascido, para os amigos socialistas da época, o mais louvável “traidor de sua classe”. Afinal, desde que se descobriu politicamente, esteve sempre ao lado da luta pela liberdade.

Ah! Se todos os ‘traidores’ tivessem o caráter desprendido e generoso de Marcito. Sim, para as pessoas mais próximas ele era o Marcito opinioso, teimoso, às vezes equivocado, eternamente fazendo o melhor pelos brasileiros.

Conheci-o militante na política estudantil no Rio de Janeiro. Era um dos intelectuais que abandonaram a torre de marfim para ir às ruas enfrentar o arbítrio. Vivemos inúmeras peripécias. Tornamo-nos irmãos.

Trabalhei por sua eleição de deputado federal. Panfletei, colei cartazes, fiz comícios relâmpagos, subi morros.

Eleito, Marcito cumpriu tudo aquilo que prometera. Enfrentou a ditadura sem trégua, no curto, tenso e intenso período de fevereiro de 1967 a dezembro de 1969, quando a brutalidade do Ato lnstitucional nº 05 lhe suspendeu os direitos políticos e lhe cassou o mandato. Na mesma leva, foi Lacerda, junto com muitos resistentes.Em fevereiro de 1969, seria a vez de Mário Covas, Arthur Virgílio Filho e Bernardo Cabral.

Era o golpe dentro do golpe, como resposta à contestação aberta que fazíamos ao regime nas passeatas permitidas ou clandestinas. Resposta também à Frente Ampla, que unia Juscelino Kubitschek e João Goulart ao fidagal adversário de ambos, Carlos Lacerda. Resposta, igualmente, ao crescimento da oposição no Parlamento, com discursos contundentes que encontravam ressonância na sociedade civil.

Marcito foi o pretexto para a edição do AI-5. Em discurso singelo, no Pequeno Expediente da Câmara, conclamou as moças brasileiras a não dançarem com oficiais das Forças Armadas. Discurso que teria passado em branco se os ideólogos do endurecimento não estivessem à cata de uma desculpa para impor à Nação o conjunto de leis mais violentas e castradoras das liberdades em toda a nossa História.

O ditador de plantão, general Costa e Silva, exigiu à Câmara a cassação de Marcito. Foram dias reveladores. De um lado, os que se abastardaram e se puseram de joelhos; de outro, aqueles que, como meu pai e Mário Covas, incitaram a Casa a não se curvar. O presidente da Comissão de Justiça, homem de governo, porém caráter sem jaça, o potiguar Djalma Marinho, posicionou-se contra a cassação: “Ao meu rei tudo concedo, menos a honra”.

No plenário, venceu a tese autonomista e o jovem deputado manteve o mandato. Surgiu então o monstrengo antijurídico que deu à ditadura sobre vida de mais de 15 anos.

Foi para o exílio. Chile e França. Reencontrei-o em Brasília, ele de volta ao jornalismo, em o Globo, e eu deputado federal.

A anistia o trouxe de volta ao Brasil. Em parte. A alegria ficou vagando por alguma sombra de algum vazio. Seu sorriso não era o mesmo. As cicatrizes eram irremovíveis.

Saudades, Marcito. Lembrarei de você multifacetado. Jornalista escritor, garotão grã-fino, lutador social empedernido e, ao cabo, um homem amargo. Triste. Muito triste.

Arthur Virgílio Neto é líder do PSDB no Senado.

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