Lula e a crise: quem erra o diagnóstico erra o remédio

Pelo menos três fatores devem ocupar o centro das atenções de qualquer governante nessa fase recente da democracia brasileira que se inaugurou com a presidência da República por José Sarney: a gestão da economia; a gestão política da maioria do governo no parlamento; e, a gestão da relação do governo e do governante com seus índices de popularidade.

A mais importante das três é a gestão da economia. A parte do corpo humano que mais dói é o bolso e, desde Maquiavel se sabe que se há algo que o povo não perdoa no príncipe é a perda econômica. Se a economia se deteriora, o humor do povo para com seu governante se deteriora. Se o humor do povo para com o príncipe se deteriora, deterioram-se as condições de que o governante dispõe para manter coesa sua maioria parlamentar.

A relação entre a popularidade dos governantes e o desempenho da economia é testada e comprovada pelos fatos no Brasil e no mundo. Sarney foi do céu ao inferno quando seu congelamento de preços fracassou e a inflação voltou. A popularidade de Collor desandou quando o efeito do confisco da poupança passou e a inflação voltou. FHC perdeu sua popularidade em 1999, depois da reeleição, quando a desvalorização do Real corroeu o poder de compra dos salários. Clinton derrotou Bush pai em função dos problemas econômicos do país à época.

James Carville, consultor político de Clinton, até hoje é citado na mídia pela frase que cunhou para explicar o foco da estratégia de marketing que elegeu o marido da atual Secretária de Estado de Obama, Hillary Clinton, presidente dos EUA: “É a economia, estúpido!”. Dez entre nove comentarias da imprensa brasileira hoje, lembram a frase de Carville nas especulações sobre o eventual impacto da crise sobre a popularidade de Lula. Todos, sem exceção, põem uma ressalva, nas avaliações que fazem, aventando a hipótese de que o carisma de Lula talvez blinde seus índices de popularidade da corrosão provocada pelos efeitos da crise sobre o bolso do brasileiro.

O governo já teme que não; com razão. O carisma de Lula pode minimizar seu prejuízo; blindar sua popularidade, não! Por quê? Porque o governo errou o diagnóstico da crise e de seu impacto sobre a economia brasileira. E, se errou o diagnóstico, errou o remédio. E o paciente está começando a perceber, coisa que não acontecia até poucas semanas atrás.

Quanto mais estudo a política mais me convenço de que uma das maiores fontes de erro do ser humano nasce da arrogância. E da soberba na orientação das escolhas que fazemos para responder às demandas da realidade que nos cerca.

Nos políticos o problema é tão mais grave quanto mais popularidade o governante tem. Dependo do grau de perturbação mental do detentor do poder (sim, a psicologia pós-freudiana comprova que há gente que busca no poder político compensação para frustrações da infância), a arrogância também acomete às lideranças políticas impopulares, agravando suas condições de governabilidade.

A preocupação do governo com sua relação com a opinião pública é necessária, mas não deve ser ela a presidir seus critérios de decisão política. Lula, não raras vezes, demonstra sentir-se um predestinado por Deus para conduzir o povo brasileiro ao paraíso. Ao que parece, o presidente embriagou-se com seus índices de popularidade e acreditou que, num mundo globalizado em que o capital circula em rede por todo o planeta, seria possível ao Brasil, porque presidido por ele, passar incólume aos desdobramentos da crise do século. Não foi só Lula quem acreditou nisso. Seus marqueteiros também. E, pior para nós, a equipe econômica de Lula também. Inclusive o virtual candidato ao governo de Goiás pelo PP, Henrique Meirelles, que comando o Banco Central do Brasil (BC).

Mais do que a retórica, é o comportamento concreto do governo que comprova o erro. Essa semana o BC se viu obrigado a dar um tombo na taxa de juros, em direção opostas às decisões que vinha tomando. Se assim agiu é porque vinha mantendo a Selic elevada por acreditar que a pressão da demanda sobre os preços pressionava os índices da inflação para cima e seria preciso provocar contenção do consumo.

Já o ministério da Fazenda, do perdulário ministro keynesiano, Guido Mantega, largou nas mãos de Lula a batata quente da suspensão do aumento do funcionalismo federal, anunciado no ano passado, quando o governo acreditava que a crise reverberaria no Brasil apenas como marolinha. Espera-se que, dessa vez, a responsabilidade fiscal se sobreponha à preocupação com a popularidade nos critérios que orientam as decisões de Lula sobre a gestão da economia. A conferir.

Mas, a arrogância, se não curada com o reconhecimento dos primeiros erros que cometemos na juventude, torna-se doença crônica e incurável com o passar do tempo. Lula, que ajudou o Itaú a comprar o Unibanco depois da falência da AIG, se atreve a ditar regras a Obama e aos governantes europeus, mandando-os estatizar seus bancos antes que seja tarde. Pode?

Tudo isso está dando na vista. E Lula esforça-se para jogar a culpa nos outros. No entanto, ainda em outubro de 2008, no artigo “A crise global no Brasil e a culpa de Lula”, alertamos:

“(…) Aqui as responsabilidades se distinguem, pois o populismo de Lula se sobressai no contraste com o modelo de gestão de FHC. O presidente atual fez opção deliberada pela aceleração do gasto público. Ao empossar Guido Mantega no ministério da Fazenda no lugar de Palocci, Lula patrocinou uma inflexão na política econômica do governo. Com isso, o presidente criou um conflito intestino entre a Fazenda e o BC; introduzindo uma contradição entre política de Meirelles para conter a inflação e a política de Mantega de aumentar o gasto público para turbinar o projeto de poder do PT. Mesmo ante o alerta repetido por analistas que chamavam a atenção para a necessidade de aproveitar o bom momento da economia mundial para reduzir o custo Brasil naquilo em que o Estado pesa sobre o preço dos produtos brasileiros e os ombros do contribuinte, Lula contratou milhares de funcionários públicos; criou novos órgãos estatais e concedeu aumentos reais de salários aos servidores. O impacto desses gastos se fará sentir a partir de 2009, num contexto de retração da economia e da decorrente redução da arrecadação. Lula, repito, tem culpa no cartório. Serra já abriu baterias contra a gestão econômica de Lula. A guerra pela opinião pública está recém começando.”

Não foi só aí que o governo errou. A gestão da maioria do governo no parlamento também está ameaçada. Na véspera do ano da sucessão presidencial, o PMDB cercou Lula no Congresso ante a perplexidade do PT. Deitado eternamente em berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo; entorpecido pela brisa oceânica do verão brasileiro, e pela imagem da marolinha da crise que, segundo Lula, se desmancharia em espuma no nosso amplo litoral, o PT dançou na mão de Sarney, Renan Calheiros e Michel Temer. E Collor.

Tal como aquelas brincadeiras que se fazem com fileiras de dominós, uma coisa leva à outra. Quando o primeiro da fila cai, os outros vão atrás. O tabuleiro sobre o qual repousam os dominós de Lula está chacoalhando.

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