Dava um conto

A política brasileira está em crise. Os escândalos se sucedem nos poderes da República. O próprio Senado começa a ser passado a limpo – e isso não é pior do que a inércia anterior – a partir da constatação de que, a partir de 1995, sua máquina funcional inchou desabridamente.

Até 1994, a Casa era dirigida por apenas 7 Secretarias e 16 Subsecretarias. Hoje, descobriu-se que são 183 cargos entre Diretorias e Subdiretorias. Até Diretor de Garage encontramos por lá, cumprindo a “nobilíssima” função de verificar se os carros senatoriais estariam sendo bem lavados. Polpudas gratificações às custas do contribuinte brasileiro. Quanto mais rezo, mais assombração me aparece!

Coincidentemente, o Presidente do biênio 1995/96 foi José Sarney, o mesmo do período que ora se inicia. Já lhe disse pessoalmente e da tribuna: “tome as atitudes que o momento requer ou o senhor viverá gestão tumultuada e improdutiva”.

Terça-feira farei proposta clara a ele e aos meus pares: reduzir essas 183 Diretorias e Subdiretorias para padrões bem próximos de 1994. Será isso ou a desmoralização da instituição encarregada de defender a Democracia.

Eu reclamava de Fernando Henrique a existência de 28 Ministérios. Critico o Presidente Lula por haver aumentado esse número para 37. E olhem que um governou e o outro governa um país de quase 200 milhões de almas. Como aceitar, então, fazendo cara de paisagem, 183 dirigentes para tocar o Senado? Ou, quem sabe, outro tanto na Câmara?

AMAZÔNIA

Irei à tribuna na próxima quarta-feira, para falar de Amazônia. Convidarei os Senadores ao debate. É inaceitável tanta alienação do País em relação a sua região mais estratégica. Tentarei explicar a relação entre a Zona Franca, que poucos conhecem – e muitos condenam – e a preservação de 98% da floresta em território amazonense. Falarei de segurança nacional e desenvolvimento econômico.

O mundo se interessa pela Amazônia… e o Brasil não, como bem diz o Deputado Francisco Praciano. Os brasileiros amam a nossa região e parece que isso lhes apazigua a consciência. Estudá-la, nem pensar. Já as potências estrangeiras levam o tema mais a sério. Há estrangeiros que nos amam e outros que nos cobiçam as riquezas. Todos, contudo, procuram estudar-nos.

Por aí afora, bolsas e mais bolsas-de-estudo são concedidas a quem se queira doutorar em Amazônia. E no Brasil? Que Universidade do Centro-Sul faz isso?

PRÍNCIPE CHARLES

Conheci-o na Clarence House, em Londres, durante Seminário sobre Desenvolvimento Sustentável na Amazônia. Figura educada e simples.
Ações humanitárias na África ou pequenos investimentos em comunidades amazônicas sempre sustentam a imagem da realeza britânica diante dos súditos. Meio que contrabalançando as tolices dos príncipes mais jovens, que levam o contribuinte a pensar se vale a pena manter por mais tempo o regime monárquico.

Achei boa a experiência, mas, sinceramente, o que ele pode oferecer ao Amazonas é pouco. Sem nenhum desrespeito ao Acre, segredei ao meu amigo Senador Tião Viana que as propostas e possibilidades do príncipe se amoldam mais à economia do seu Estado que à realidade do Amazonas, marcada pela pujança do Pólo Industrial de Manaus. E, claro, ONGs, entre as decentes e as nem tanto, se valem de um adjutório aqui, outro acolá. Nosso estágio está mais para negociações com o Primeiro-Ministro Gordon Brown do que com o filho da rainha Elisabeth.
Revi-o no Senado, no gabinete da Presidência, e apreciei seu interesse de ir ao Amazonas. Valor simbólico para a causa ambiental, sem dúvida que tem. É até exemplo a ser seguido por quem pretenda governar nosso País.

Escrevo este artigo com muito bom humor. Saiu foto sensacional nos jornais amazonenses: o Príncipe, ladeado pelo governador Eduardo Braga (criador de gado no Acre e por isso, denunciado à Justiça pelo Ministério Público, sob a suspeita de lavagem de dinheiro) e o empresário Tony Py, com quem mantenho relações cordiais, processado por crime ambiental.

Márcio Souza, Aldizio Filgueiras, Milton Hatoum, morro de inveja de vocês. Por que não fui ser escritor? Sintam a cena: o príncipe que não manda na Inglaterra, o governador “ecológico” criador de gado e o empresário questionado na Justiça por agressão ao meio ambiente.

Dava um conto e tanto.

Arthur Virgílio é líder do PSDB no Senado.

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