Culpa e vergonha

NESSES DIAS de novos e velhos escândalos na política aqui por Brasília, lembrei-me de um colóquio do psicanalista Ricardo Goldemberg, autor do excelente livro “Psicanálise e Política”, que acompanhei com pessoas participantes de um dentre os vários grupos de estudos de uma escola de psicanálise da cidade. Ao final de sua fala, talvez por estar no centro do poder, Goldemberg fez uma breve, mas muito relevante e significativa referência à diferença entre nosso “ethos” político ocidental e o dos asiáticos.

Não comparou culturas, mas evidenciou as diferenças de percepção e sentido do ato de cometer erros em cada uma das cosmovisões, sobretudo no que diz respeito ao trato da coisa pública. Se bem entendi, na tradição asiática, o sujeito situa-se no mundo pelas mãos, olhar e escuta do grupo ao qual pertence -família, colegas do trabalho, comunidade-, o que resulta num peso incomum, para o coletivo, de tudo o que o indivíduo faz.

Já na tradição ocidental, o referencial que orienta nossa conduta moral, ética e social está centrado quase que exclusivamente nas virtudes ou defeitos dos indivíduos. Isso implica grande diferença na forma como as duas tradições lidam com o erro, a fraude ou os malfeitos em geral que campeiam no reino da política. Na primeira, o sujeito é reconhecido pela maneira como o grupo o aceita e empodera.

Assim, se qualquer atitude ou ação desabonadora individual se transforma em prejuízo material ou moral também para o coletivo, quando ela acontece, é fonte de grande e quase irremediável vergonha. Na segunda, ainda que o pertencer a um grupo seja igualmente condição para situar-se no mundo, os erros e virtudes são predominantemente focados no indivíduo. A atitude ou ação desabonadora que alguém fizer recai sobre ele mesmo.

O prejuízo moral e ético, motivo ou não de culpa, terá um peso majoritariamente pessoal. Lá, quando erram, a vergonha perante o grupo ao qual devem honra e satisfação é tanta que muitos chegam ao extremo de acabar com a própria vida. Aqui, quando não tentam tapear a inteligência alheia com justificativas esfarrapadas, às vezes apelam a uma segunda chance, com juras de “lição aprendida”.

Isso quando não desaparecem por um tempo necessário ao esquecimento e voltam para repetir os mesmos erros e contravenções. Seria muito bom para o Brasil se, nos casos que envolvem a ética pública e o dinheiro do contribuinte, para além da apuração dos fatos, julgamento rápido, isento e severa responsabilização criminal, houvesse arrependimento sincero, menos culpa e mais, muito mais, vergonha.

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