Centro de Manaus. Estamos cegos

Em Ensaio Sobre a Cegueira José Saramago fala de uma cidade que repentinamente é tomada por uma epidemia que vai cegando os seus habitantes. De repente, todos estão cegos, a cidade vira um pandemônio, lixo por toda parte, pessoas vagando sem rumo pelas ruas, prédios deteriorados, conflitos por comida e abrigo, enfim, um absoluto caos urbano.

Bem que o ensaio do escritor português poderia estar falando do Centro da cidade de Manaus. Camelôs por toda parte, calçadas tomadas pelas vitrines e manequins das lojas, fachadas históricas encobertas por letreiros de péssimo gosto, mesas e cadeiras nos passeios públicos, lixo , comida, ratos.

Andando pelo Centro histórico de Manaus a sensação é de que estamos cegos, como os personagens de Saramago, tiram-nos o direito de ver a nossa cidade, a nossa história, cegaram-nos! Andamos a esmo sem achar nosso destino, escondido sob carrinhos de pipoca, churrasco de gato, roupas, utensílios eletroeletrônicos e o que mais o comprador desejar.

Enfrentar o caos urbano de Manaus exige um governante capaz de submeter seus interesses político-eleitorais momentâneos ao elevado interesse público de devolver a cidade aos seus munícipes. Exige, por outro lado, um grande pacto entre população, comerciantes, Poder Público e a imprensa.

Sonhar que essa desocupação das áreas públicas do Centro dar-se-á sem conflito é idealizar uma solução mágica para não realizar uma solução possível, é acovardar-se diante do problema.

Oferecer alternativa econômica para as milhares de pessoas que hoje vivem do comércio informal no Centro de Manaus é necessário. No entanto, não há registro de desocupações como essa sem a reação que certamente virá, não daqueles que vivem humildemente como camelôs, mas daqueles que os usam como atravessadores, daqueles que são “donos” de várias bancas, dos fornecedores.

No livro de José Saramago o amor e a solidariedade devolvem a visão aos personagens. Que esses sentimentos toquem os nossos corações e as nossas almas e sensibilizem nossos governantes para que nos devolvam o direito de ver a cidade.

Marcelo Ramos, é advogado e vereador pelo PCdoB.

Site: www.vereadormarceloramos.com.br

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